Entrevista com sociólogo Anderson Campos

Trabalho

Veja a entrevista do sociólogo Anderson Campos, autor de Juventude e Ação Sindical: crítica ao trabalho indecente, sobre o trabalho da juventude.

422461_322834234442094_1535743876_nVeja a entrevista do sociólogo Anderson Campos, autor de Juventude e Ação Sindical: crítica ao trabalho indecente (disponível para download gratuito), sobre o trabalho da juventude.

Quais são as especificidades do trabalho da juventude?

O debate sobre o trabalho de jovens é recente. É uma situação que se aprofunda com o aumento da flexibilização das relações de trabalho. O Estado é pressionado para não regular publicamente essas relações e para se retirar do papel de provedor de políticas sociais e da promoção da igualdade. Esse novo padrão de mercantilização – ou seja, mediando o acesso aos direitos pelo pagamento – provocou uma maior pauperização da vida das famílias.

As famílias tinham menos recursos, menos renda e menos condições de sustentar a vida de seus filhos e, ao mesmo tempo, precisavam de mais recursos para bancar as novas necessidades. Isso fez com que uma grande quantidade de jovens entrassem cada vez mais cedo no mercado de trabalho, para poder contribuir com a sobrevivência coletiva das famílias. Nessa perspectiva, teve muita visibilidade o trabalho infantil. Mas adolescentes e jovens acabaram tendo também uma necessidade de entrar no mercado de trabalho, nas condições que o mercado oferecia e com menos capacidade de escolher.

Os jovens entraram em trabalhos precários, num mercado de trabalho flexível, com regulação privada. Do ponto de vista etário, os jovens foram os principais afetados por essas mudanças. O tema surge com força não por uma opção dos intelectuais, mas porque aparece como uma questão social. Na segunda metade da última década, o tema juventude e trabalho começa a aparecer na agenda dos movimentos, do governo, das organizações multilaterais. Isso partiu da visão de que a quantidade de jovens que abandonam a escola, não têm acesso à universidade, porque não podem conciliar trabalho com estudo, isso provocaria um grande problema de desenvolvimento para esse país. Então a opção dos governos de debater juventude e trabalho era uma questão de desenvolvimento.

Como vem acontecendo o debate sobre trabalho da juventude?

A política de desenvolvimento, de 2003 até 2013, demonstra que a elevação da renda das famílias, através de geração de empregos, valorização do salário mínimo, transferência de renda e elevação do gasto com políticas sociais, tem provocado uma mudança fundamental na entrada precoce de jovens no mercado de trabalho, principalmente de crianças – nesse período reduziu a menos que a metade. O mesmo vale com os adolescentes. Hoje permanecemos com uma defasagem de idade/série, mas no período também houve uma redução da taxa de participação dos adolescentes de 15 a 17 anos. Isso ajuda a confirmar que para essas faixas etárias, a inserção ocupacional é uma necessidade imposta economicamente.

Por outro lado, permanecem problemas estruturantes no mercado de trabalho, impactando a precarização do trabalho de jovens após os 18 anos. Para o conjunto da juventude, esses jovens estão majoritariamente alocados nas empresas que têm alta taxa de rotatividade. Ao mesmo tempo, há uma imposição de aceitar qualquer tipo de trabalho. Essas empresas veem a juventude como um nicho dentro do mercado de trabalho. Também existe um grande número de jovens que tem contrato temporário. Isso leva a um dado: a cada 10 jovens empregados, 7 deixam seu posto de trabalho ao longo de um ano. E isso não pode ser explicado por uma opção da juventude de experimentar. Eles não estão disputando – segundo dados do IPEA – postos de trabalho com os adultos. Disputam entre eles mesmos.

Isso tem relação com o desemprego dos jovens, que é maior que no conjunto da população?

Hoje a principal marca da inserção ocupacional dos jovens brasileiros é a questão do desemprego. Eles já entram no mercado de trabalho na condição de desempregado. Os impactos para a sociedade dessa condição é uma juventude organizada pelo imediato, porque não pode ter plano de futuro, uma vida baseada na instabilidade. Sua condição de precariedade não permite ter projetos de autonomia e emancipação – o trabalho não significa a busca de emancipação – e são jovens que não têm tempo, porque seu tempo está sequestrado pelo mercado, e não tem o direito de participar. Não tem tempo para fazer outra coisa. Seja porque está numa jornada longa, seja porque mesmo conciliando estudo, é um estudo para o trabalho. São cursos de qualificação, ou um curso superior noturno pensando que com aquele curso ele vai ter uma posição melhor no mercado.

O que é a Agenda Nacional de Trabalho Decente para a Juventude?

Foi uma iniciativa muito provocada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). O governo brasileiro topou construir, teve participação de empresários, das centrais sindicais, do Conjuve (Conselho Nacional de Juventude) e de vários outros convidados para compor um comitê. Foi aprovada em 2010 e lançada. E de lá para cá permaneceu guardada, arquivada. Não foi transformada, como era reivindicado, em um Plano Nacional do Trabalho Decente de Juventude, que era a forma de fazer com saísse do papel. A construção de um plano foi aprovada também na Conferência Nacional de Trabalho Decente e Emprego e na 2ª Conferência Nacional de Juventude.

Está definida em quatro eixos, que organizam linhas e propostas de ação: mais e melhor educação, conciliação dos estudos, trabalho e vida familiar; inserção ativa e digna no mundo do trabalho; e diálogo social. É um programa avançado, feito com participação social, atinge jovens rurais e urbanos. Pensa não só a educação, mas também saúde, participação, comunicação, outros elementos relacionados também com trabalho. O principal desafio é que o governo assuma a tarefa de retomar a agenda para a construção de um plano.

Muitas das iniciativas para melhorar a participação dos jovens no mercado de trabalho são na linha da qualificação. Isso resolve?

Aí vem o problema das respostas. Que não estão preocupadas em combater a desigualdade, seja pela incapacidade de entender ou de enfrentar os problemas centrais. Como a ideia de que o problema é aumentar a empregabilidade, e que apenas gerar mais educação ou incentivar o empreendedorismo individual fossem formas de superar os problemas estruturais do mercado de trabalho para a juventude. São questões em disputa. Precisamos pensar o enfrentamento aos problemas estruturais do mercado de trabalho que hoje impactam sobretudo a juventude. E não o contrário, não pensar que através de políticas puramente focalizadas no jovem nós vamos alterar o conjunto das questões estruturais.

A redução da jornada de trabalho é uma das propostas?

Na Agenda Nacional do Trabalho Decente da Juventude, a redução da jornada não entrou como proposta porque não havia consenso com os empresários. Num espaço de conciliação, não foi possível avanços nesse sentido. Apesar de considerar avançada, progressista, a agenda também tem suas limitações. O debate sobre rotatividade, as convenções da OIT e a redução da jornada de trabalho são temas que tivemos dificuldade de encaminhar e continuam como agenda da classe trabalhadora.

Para a juventude, a redução da jornada é central. Significa poder conciliar trabalho com estudo, ter tempo livre para acessar ou produzir cultura. Em relação às mulheres jovens é mais importante ainda. Se a juventude tem uma jornada longa e tem que complementar com educação para o trabalho, para as jovens mulheres, há ainda a responsabilização pelo trabalho doméstico e de cuidados. A redução da jornada entra não para a mulher, para ter tempo para fazer o trabalho doméstico, mas para todos, homens e mulheres, e pode propiciar um melhor compartilhamento do trabalho doméstico.

A redução da jornada diz respeito também à saúde. As jornadas não são apenas longas, mas intensas. Isso tem provocado doenças antigas e novas, como depressão, síndrome do pânico. Cerca de 40% dos casos de entradas na previdência social de acidentados e adoecidos por causa do trabalho são jovens de até 29 anos. A redução da jornada de trabalho representa uma melhoria de condições de vida para a classe trabalhadora e para os jovens em particular.

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