Educação integral deve sair da escola

Educação Ensino médio

Ao invés de aumentar a jornada do estudante dentro da escola, modelos deveriam apostar na aprendizagem propiciada pelos espaços públicos.

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Entre as propostas para melhoria da educação básica, a educação integral é uma das mais frequentemente citadas. O Plano Nacional de Educação, por exemplo, prevê como meta que até 2020, 50% das escolas ofereçam educação integral.

A ideia tem também amplo apoio na sociedade. Segundo uma pesquisa realizada pelo Datafolha para a Fundação Itaú Social (veja em PDF) em abril de 2013, 90% da população acredita que a educação integral é necessária para o futuro das novas gerações. A escola foi apontada por também 90% dos pesquisados como ambiente onde crianças e adolescentes podem aprender. Em seguida vem a casa (57%) e a igreja (27%). Outros espaços têm poucas menções.

“O debate sobre educação integral no Brasil enveredou por um consenso extraordinário. Não há quase nenhum questionamento sobre a efetiva ‘positividade’ da educação integral, pois um questionamento deste tipo seria recebido como uma posição ‘contra a educação’”, critica a professora Ana Paula Corti, docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) e doutoranda na Faculdade de Educação da USP.

Ela explica que muitos pais veem a escola de forma positiva pela comparação com sua própria experiência de dificuldade de acesso. “A questão do acesso sempre foi mobilizadora dos setores populares, enquanto a questão da qualidade, das condições de funcionamento das escolas, nunca chegou a ter maior força aglutinadora”.

A pesquisa perguntou o que as pessoas entendiam por educação integral. Dentre as percepções, 40% associaram ao aumento de tempo na escola e 22% à realização de atividades extracurriculares. Um terço nunca tinha ouvido falar em educação integral. A valorização da escola também se dá em oposição a outro espaço: a rua. Ao responder sobre as razões pelas quais a educação integral é necessária, 30% apontaram a ocupação do tempo livre (Tira crianças e jovens da rua; ficam ocupadas com atividades; ficam menos tempo na internet e TV); 23% responderam que a educação integral evita a criminalidade (Não fica na rua e aprende o que não presta; não faz coisas erradas; afasta as crianças das drogas).

“Essa ideia de que é bom porque não está na rua é uma falsa ideia, do meu ponto de vista. A gente tem que fazer com que a rua e os espaços públicos sejam espaços de convivência e de aprendizagem. Tem que ter participação cidadã, solidariedade, respeito à diversidade. A rua pode oferecer isso. Mas trancar – entre aspas – dentro de uma instituição de ensino os adolescentes por oito, nove horas tem se mostrado um equívoco”, afirma Alexandre Isaac, sociólogo e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Ana Paula também questiona a ampliação da jornada sob esse prisma. “Parece que estamos diante de um modelo de regulação social da juventude, que tem na escola seu principal vetor. A pesquisa que mostra a associação feita pela população entre educação integral e prevenção da criminalidade reforça este temor. Há, concretamente, o risco de que a educação integral assuma o papel de contenção dos jovens”.

A pesquisa não aborda possíveis diferenças de modelo de educação integral entre as etapas do ensino fundamental e médio. É especialmente no ensino médio que a educação integral deveria ser pensada não como uma extensão da rotina que os jovens já têm na escola. “Se os estudantes que estão no ensino médio revelam, em diversos estudos, que não veem sentido na escola, por que motivo responderíamos a eles obrigando-os a permanecer mais tempo nela?”, questiona Ana Paula. “Essa faixa etária tem uma especificidade que não está sendo considerada, que é de apropriação do território. Para as crianças e adolescentes também, mas especialmente para adolescentes e jovens, a questão da apropriação do território, do acesso ao conhecimento acumulado, à cultura da cidade, não está sendo considerada no currículo. Isso tem se caracterizado como um ponto de estrangulamento das propostas de educação integral para o ensino médio. O que a gente tem visto é sempre dentro da escola”, avalia Alexandre.

A pesquisa do Itaú Social apresenta três propostas de modelo para a educação integral. A primeira, chamada “iniciativa escola”, funciona com “escolas em que os alunos ficam pelo menos 7 horas por dia, com aulas básicas como língua portuguesa, matemática e ciências, mas também com aulas de outras áreas, como artes, inglês, atividades esportivas, música, teatro, etc.”. Essa iniciativa teve nota média de 9 (numa escala de 0 a 10) e foi considerada muito importante por 70% dos entrevistados. O segundo modelo é a “iniciativa ONGs”: “Em um período as crianças ficam na escola e no outro participam de atividades educativas nas ONGs”. Nesse caso, a nota média foi 8,8 e 68% consideraram muito importante. A principal crítica era a falta de confiança e a possibilidade de desvio de verbas nos convênios. Por fim, foi apresentada a “iniciativa clubes, igrejas, empresas e espaços públicos”. Nesse modelo, cada escola durante 7 horas usa “diferentes espaços da cidade para ações educativas com as crianças”. A nota média foi de 8,9. A ressalva mais comum foi ao envolvimento de igrejas.

Alexandre Isaac acredita que o modelo ideal está mais próximo dessa última proposta. “Só a escola ou uma Secretaria de Educação não dão conta de ofertar tudo que um adolescente precisa para sua formação integral. Quando a gente fala em educação integral, a gente está falando acima de tudo em desenvolvimento integral”, defende. “Tem que ter uma formação específica e de qualidade no campo da cognição, das disciplinas: matemática, línguas, biológicas, exatas. Mas temos que ofertar também situações de aprendizagem em outras áreas do conhecimento: arte, cultura, ludicidade, mundo do trabalho, participação na vida pública”.

(Texto: Bárbara Lopes)

Veja também:

* Expansão do ensino integral em São Paulo é vista com ressalvas

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