Cursinhos populares são alternativa para acesso ao ensino superior

Educação Ensino superior

Voltados para jovens de baixa renda, cursinhos têm diversidade de estrutura, práticas e posicionamentos políticos.

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Texto e foto: Bárbara Alves Lobato*

Desde a década de 1990, surgem no Brasil diversos cursinhos pré-vestibulares populares, comunitários e alternativos. Gratuitamente ou com mensalidades mais acessíveis, esses espaços surgem com o intuito de fazer com que os jovens de classes populares ingressem no ensino superior público. Uma das principais características dos cursinhos populares é seu público-alvo: jovens oriundos de classes populares. Em geral eles se organizam a partir da enorme demanda reprimida por acesso ao ensino superior, de jovens que encontram no vestibular o maior obstáculo para a continuidade de seus estudos.

Há uma grande diversidade de estruturas organizativas, práticas pedagógicas e posicionamentos políticos dentre os envolvidos com estes movimentos sociais. É bastante comum a relação com outros movimentos sociais, destacando-se o movimento estudantil e o movimento negro. “Quando os cursinhos surgem com força no Brasil, começam no Rio de Janeiro e depois se espalham pra outras capitais. É um fenômeno no início muito vinculado às regiões metropolitanas ou a capitais mesmo, e diretamente vinculado ao movimento negro. Nesse sentido, a Educafro puxou com muita força a bandeira dos cursinhos. Por outro lado, há muitos trabalhos vinculados à comunidade, então muitos cursinhos vão se chamar ‘comunitários’. São normalmente estudantes universitários que fizeram alguma licenciatura e que eram moradores daquela comunidade”, explica o orientador pedagógico Eduardo Peterle, que pesquisou cursinhos populares em seu mestrado.

» Veja cursinhos populares e alternativos em São Paulo

Em São Paulo, quem importa a ideia é movimento estudantil, no começo da década de 1990. São os estudantes que começam a organizar cursinhos dentro das universidades para oferecer para a comunidade. Os primeiros cursinhos começam a surgir na USP foram o cursinho da Poli, em 1987, e o cursinho do Núcleo de Consciência Negra, em 1988. Em 1996, o cursinho da Poli sai do campus da USP e começa um processo de expansão. Do próprio cursinho da Poli, forma-se o cursinho da Psico, em 1998. No mesmo ano, os moradores do CRUSP (Conjunto Residencial da USP) organizam um cursinho. O cursinho da Faculdade de Economia e Administração (FEA), é criado em 2000, com vínculo formal com a direção da faculdade, o que garante alguns recursos materiais.

Trabalho voluntário

Muitos dos docentes que atuam nos cursinhos populares são ex-alunos dos próprios cursinhos, fazendo com que o fato de serem cursinhos voluntários não atrapalhe a dedicação por questões de remuneração. “As pessoas que estão fazendo esse trabalho de militância estão lá por vontade própria mesmo, elas veem significado naquilo que fazem. Um dado muito bacana é que a maior parte dos professores de cursinhos são ex-alunos de cursinhos. A pessoa trocou de papel, então tem uma ligação afetiva e até de orgulho de estar dando aula. Para quem está envolvido com formação política não vai ser a remuneração que vai determinar”, explica o Peterle.

Em um segundo momento surgem os chamados “cursinhos alternativos”, que cobram alguma mensalidade, mesmo que barata, e que remunera as pessoas que trabalham no cursinho. O Cursinho do XI, fundado em 1996 pelo Centro Acadêmico XI de Agosto da faculdade de Direito da USP, passou por essa transição. De acordo com a coordenadora, Augusta Barbosa, o trabalho voluntário não é mais parte do funcionamento. “Tem só duas pessoas que trabalham como voluntárias. Uma delas é meio voluntária, nesse caso eu, que faço uma parte da coordenação e ganho pelas aulas. O outro é um professor que nos ajuda aqui, e vem e faz as aulas sem cobrar por elas”.

O cursinho tem como material de apoio as apostilas do cursinho do Objetivo, que é comprado e já vai incluso na matrícula. “Desde 2000 temos uma parceria com o Objetivo. A gente compra material do cursinho e colocamos esse material para os nossos alunos. Esse material já está incluído no preço, então a gente cobra um preço bem barato considerando que já está com o material do Objetivo incluído”, garante a professora Augusta.

Mas cursinhos com caráter mais político continuam atuantes. O Emancipa, criado em 2007, se propõe a ser um movimento de luta pelo direito à educação. Atualmente uma rede com nove cursinhos, tem como objetivo organizar a juventude para lutar pelo direito à universidade. “A gente tem três objetivos principais: fazer com que esses estudantes entrem na universidade, de preferência as públicas; lutar pelo direito à universidade; e lutar por uma sociedade mais justa e igualitária”, explica Bianca Cruz, coordenadora da Rede Emancipa.

“Tem uma atividade básica no cursinho que chama ‘círculo do Emancipa’, que é como uma assembleia de cada cursinho que participa. É aberta a todos e acontece dentro da grade. Nessa atividade, a gente discute desde os temas de organização própria do cursinho, como os alunos a participarem da construção do cursinho também, até os temas mais amplos da política geral da sociedade”, afirma.

Dificuldades

Muitos jovens sentem dificuldades em acompanhar as aulas, já que o cursinho acaba servindo para compensar deficiências do aprendizado na escola. “Com certeza muitas coisas que eu não aprendi na escola aprendi aqui, principalmente porque eu vim de escola pública, então não tinha professor. De verdade, 100%, eu aprendi aqui o que era pra eu ter aprendido na escola”, conta Jeniffer Stephane, que estuda no Emancipa e pretende prestar Medicina.

As dificuldades com as disciplinas ajudam a entender o alto índice de evasão. “Várias pessoas já desistiram desde que comecei o cursinho, começou com mais de 80 pessoas nos extensivo e agora tem umas oito pessoas na sala de aula”, explica o aluno do Emancipa Mauricio Trindade.

“Isso tem motivos sociais muito fortes. As pessoas começam a trabalhar ou então entram num curso técnico como forma de continuidade dos estudos mais rápido do que entrar na universidade. De fim de semana têm alguns outros obstáculos. Muitas meninas têm que ajudar em casa, têm que cuidar da família”, afirma Bianca Cruz.

O pesquisador Eduardo Peterle lembra que, apesar da evasão, a persistência dos estudantes é também é admirável. “A maior parte nunca tinha feito vestibulares das públicas. Entrando em cursinhos populares, a maioria priorizava o vestibular das públicas e não particulares, principalmente nesse quadro pós-PROUNI. E uma das coisas bonitas era que esses jovens não se intimidavam por quantas vezes tinham que fazer o vestibular, uma vez que tinha sido picado pela ideia de ‘vou fazer’, ‘vou entrar’”.

Extinção

De maneira geral, a procura por cursinhos pré-vestibulares populares tende a diminuir por causa do PROUNI e SISU – o que para os cursinhos é um avanço, acredita Eduardo Peterle. “Com o ENEM ganhando força como exame de acesso também enfraquece, porque eu posso fazer um bom ENEM e conseguir lugares nas universidades. Os cursinhos tinham um discurso sempre nos fóruns públicos que era assim ‘A gente trabalha pra gente se extinguir, a gente trabalha pelo nosso fim’, o sucesso do cursinho popular é quando ele não precisar existir mais. Com a ampliação de vagas, por exemplo. Atualmente, a gente tem 15% acho que jovens de 16 a 24 anos fazendo Ensino Superior. A ideia é chegar em 2022 com 30%. A tendência da democratização de acesso é extinguir o vestibular”.

monitora do projeto Jovens Agentes pelo Direito à Educação, promovido pela Ação Educativa

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