Dossiê analisa condições de vida das mulheres negras no Brasil

Educação Ensino superior

Publicação traz artigo sobre a desigualdade que persiste na presença de mulheres negras no ensino superior

mulheresnegras

As desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras em relação à inserção profissional, educação, situações de violência e acesso a bens e tecnologia são tema da publicação Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil [PDF], editado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e a ONU Mulheres.

Um dos textos que compõem a publicação é “Transformações no Acesso ao Ensino Superior Brasileiro: Algumas Implicações para os Diferentes Grupos de Cor e Sexo”, de Edilza Correia Sotero. Ela mostra que a expansão do ensino superior a partir dos anos 1990 não teve grandes impactos na desigualdade no acesso. Embora o número de pessoas negras nesse nível de ensino tenha aumentado de forma mais acelerada que de brancos, o ponto de partida de homens e mulheres negras era muito baixo. A porcentagem de jovens brancas no ensino superior passou de 9,92% em 1995 para 23,81% em 2009. No caso de jovens negras, o índice passou de 2,37% para 9,91%.

O aumento da oferta no nível superior se deu a partir do crescimento da rede federal e, principalmente, da rede privada. Nos anos 2000, começaram a ganhar força iniciativas de ação afirmativa. Nas universidades públicas, com a implementação de cotas ou bônus para estudantes de escolas públicas e negros e indígenas. A Lei de Cotas nas universidades federais começou a ser implementada em 2012, mas muitas instituições estaduais têm programas semelhantes. Além disso, foi criado o Programa Universidade para Todos (ProUni), que dá bolsas de estudo para estudantes de escola pública em instituições particulares de ensino superior. O programa também tem reserva de vagas para negros e indígenas.

“O crescimento [da participação de mulheres negras], assim, atesta a efetividade e a necessidade de continuação destas medidas, visando à contínua diminuição, e até à superação, das desigualdades no acesso e na permanência no ensino superior” diz o texto. Mas a autora chama a atenção para a necessidade de problematizar a forma como se dá a entrada, em que instituições e cursos.

Com o crescimento das vagas surge um fenômeno chamado hierarquização. Com isso, estabelecimentos da educação são valorizados de forma diferente e os de posição mais alta se mantêm como exclusivos de um grupo. No caso brasileiro, uma das formas que essa diferença se dá é na divisão entre instituições públicas e particulares. As primeiras são na maioria universidades, com maior estrutura e autonomia, enquanto as faculdades e centros universitários se concentram no setor privado.

“Entre 2004 e 2009, a matrícula de mulheres no ensino superior público cresceu pouco mais de 12%, enquanto os homens tiveram um incremento de aproximadamente 25%. Assim, é possível afirmar que as mulheres são as que mais sofrem os efeitos da hierarquização do ensino superior, não só porque possuem as taxas de escolaridade mais elevadas, mas porque este crescimento vem se processando mais pela via privada”, explica o artigo.

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