Estudantes se manifestam no Chile pela educação pública

Mobilização

Protesto na última quinta-feira reuniu pelo menos 40 mil pessoas defendendo reformas estruturais na educação

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Dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas de Santiago, no Chile, nesta quinta-feira, em defesa de uma educação pública, gratuita de qualidade. A marcha reuniu 40 mil pessoas, segundo a polícia, ou 100 mil participantes, segundo os organizadores. Estavam representadas entidades de estudantes secundaristas e universitários, professores, trabalhadores da educação, entre outras.

O sistema educacional chileno, a partir da ditadura de Augusto Pinochet (que ficou no poder entre 1973 e 1990), passou a ter uma grande influência do setor privado. As reformas feitas no setor foram baseadas, principalmente, em reformas econômicas de viés neoliberal. Na educação básica, as escolas públicas foram municipalizadas, consideradas de menor qualidade. Foram municipalizadas e, com o tempo, passaram a sofrer um processo de discriminação, consideradas de menor qualidade. Existem “escolas modelo” públicas, como o Instituto Nacional, mas que são aquelas poucas e tradicionais que inclusive apresentam um certo processo de seleção. Elas dividem espaço com escolas particulares e com escolas subvencionadas, que são instituições privadas que recebem recursos (subvenções) do governo, mas que podem também cobrar mensalidades dos estudantes. Esse modelo levou à diminuição da participação das escolas públicas no país.

Já no ensino superior, há universidades públicas e universidades privadas, mas mesmo as universidades públicas cobram mensalidades. As particulares deveriam, pela lei, não ter fins lucrativos, mas usam de subterfúgios para acumular dinheiro. Um caso emblemático é o da Universidad del Mar, que está sendo fechada, por irregularidades na acreditação (o reconhecimento formal da instituição, que inclui avaliações de qualidade do ensino), atraso no pagamento aos funcionários e denúncias de desvio de fundos para empresas imobiliárias.

Com a eleição da socialista Michelle Bachelet, que tomou posse em março deste ano, aumentaram as expectativas de uma reforma profunda no sistema educacional, já que esta foi uma das bandeiras de sua campanha eleitoral. Até o momento, a presidenta anunciou um projeto que cria a figura do “administrador provisório”, ou interventor, para cuidar dos interesses dos estudantes nas instituições de ensino superior em crise. Entidades, como o Movimento de Estudantes das Universidades Privadas (Mesup), defendem a estatização para esses casos.

“As mudanças estruturais econômicas implementadas durante a ditadura militar foram pensadas para amarrar uma série de questões políticas e sociais no Chile. Um exemplo disso é a Constituição chilena de 1980, que não foi substituída por outra na volta da democracia. Determinados pactos foram feitos de que não se iria mexer em certos assuntos, como a privatização do ensino. É por isso que as demandas estudantis têm como pano de fundo verdadeiras mudanças no sistema chileno, perpassando assuntos como uma assembleia constituinte”, explica a jornalista Denise Eloy, da Ação Educativa, que pesquisou o sistema educacional chileno em seu trabalho de conclusão de curso.

Os estudantes criticam o pouco diálogo entre o governo e as organizações para propor as medidas. “Temos claro que este governo é diferente do anterior, que a posição de Bachelet sobre a educação não é a mesma que a de Piñera, e que as reformas serão impulsionadas. O tema agora não é estabelecer a necessidade de mudar a educação: o que buscamos hoje é o conteúdo das mudanças. Nós queremos tirar o mercado da educação, fortalecer a educação pública e construir um novo sistema de educação nacional, gratuito, democrático, sem lucro nem discriminação de nenhum tipo”, escreveu Melissa Sepúlveda, presidente da Federação de Estudantes da Universidade de Chile.

Governo e estudantes voltam a se reunir nesta segunda-feira, 12 de maio, para discutir o programa educacional.

(Foto: Sergio/Flickr-Creative Commons)

Para saber mais:

Em português

Em espanhol

Documentário Chile se Moviliza: Estudiantes

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