Rio de Janeiro tem escolas integrais em parceria com empresas

Educação Ensino médio

"Modelo mira onde vê e acerta onde não vê". Universalização é difícil, mas parcerias locais são interessantes, diz pesquisador

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O Estado do Rio de Janeiro pretende universalizar o ensino médio em período integral nos próximos 10 anos. O projeto Dupla Escola prevê a integração entre o currículo básico e a formação profissional dos jovens. Atualmente, são 24 escolas funcionando desta forma, parte delas em parceria com empresas e entidades da sociedade civil. O Colégio Estadual José Leite Lopes tem parceria com o Instituto Oi Futuro, e tem como foco o ensino tecnológico e na criação de jogos digitais. Já o C.E Comendador Valentim dos Santos Diniz, conhecido como NATA, em parceria com o Grupo Pão de Açúcar, é voltado para a formação profissional em panificação e laticínios.

O projeto levanta questionamentos de educadores e pesquisadores em relação à viabilidade da expansão e da desigualdade que pode criar dentro do sistema de ensino. O pesquisador Reinaldo Ramos da Silva, que faz doutorado na Universidade Federal Fluminense, foi professor C.E Comendador Valentim dos Santos Diniz e atualmente estuda o modelo.

Seria viável e/ou desejável universalizar esse modelo de educação integral?

Universalizar o modelo de educação integral do estado até 2021, como afirmou o secretário estadual de Educação, não soa convincente. Se hoje em 2014 ele atende 1% da rede com 24 escolas, isso significa fazer em sete anos uma revolução de fazer inveja aos tigres asiáticos. A julgar pelas mais de 50 escolas fechadas no período em que o atual secretário está à frente da SEEDUC-RJ, a estratégia para universalizar o modelo parece que será o de encolher a rede para tornar viável sua implantação total. A escolha dos locais para instalação destas escolas também causa estranheza pois parece não obedecer a uma lógica muito clara.  A região da Tijuca por exemplo conta com duas escolas neste sistema. A universalização talvez não seja viável, mas a multiplicação estratégica talvez seja interessante do ponto de vista da política pública, uma vez que a consolidação destas escolas não aponta para um caminho tecnicista como nos moldes do ensino técnico preconizado no período militar. Pelo contrário, é um modelo que usualmente mira onde vê e acerta onde não vê. Desenvolver parcerias locais segundo as vocações econômicas das regiões do estado e implantar múltiplos núcleos pode parecer uma política interessante. Mas seu sentido será totalmente esvaziado se não vier acompanhado de uma política séria de valorização da carreira docente como um todo.

Esse modelo responde aos anseios dos jovens de ensino médio?

Precisamos saber de qual jovem do ensino médio estamos falando. Antes de tudo é preciso ouvir os jovens, conhecer suas demandas, dar espaço para que eles possam expressar seus desejos, seus sonhos, suas inquietações. Muitos ingressam na escola mal sabendo do que se tratam os cursos técnicos que irão fazer. As instalações amplas, as oportunidades de estágio, de participação em eventos, a realização contínua de trabalhos integrados permite a estes alunos uma imersão interessante em processos de autodescoberta que já são naturais à idade, mas que ganham força em escolas como as contempladas neste modelo, que a meu ver tem seu ponto alto na criação de múltiplos espaços de encontro.

Quais podem ser os reflexos de um grupo elitizado de escolas públicas em relação ao sistema de ensino em geral?

A experiência é bem sucedida mas conta com vantagens que ferem o princípio da isonomia do serviço público e procuram implantar uma lógica de “quase-mercado”. Ao oferecer benefícios em forma de gratificações para os professores destas unidades o modelo consegue recrutar profissionais mais bem qualificados dentro da rede em processos internos de seleção. O ingresso dos alunos também ocorre por concurso público, colaborando na atração de alunos já previamente assentados em um percurso de relativo sucesso escolar – mesmo que contando com uma cota elevada para egressos da rede pública. De que modo sustentar a “qualidade” se o modelo vai se universalizar e o estado não investe na qualificação de seus profissionais?

O ensino integrado é fruto de uma decisão política muito clara: priorizar a qualidade total em um número restrito de unidades escolares para, unindo o útil ao agradável, atender aos interesses das grandes empresas parceiras para qualificação de mão-de-obra especializada, e, vender à população um “projeto” na área de educação, dada a sua comprovada eficiência – elidindo, obviamente, a situação precária dos outros “99%” da rede pública.

Há interferência da iniciativa privada na gestão dessas escolas?

Dentro do NATA, escola em que lecionei no ano de 2012, não que houvesse uma interferência no sentido negativo ou explícito do termo. Mas a escola durante um bom tempo funcionou como se cumprir a missão de formar profissionais voltados para o mercado de trabalho em panificação, leite e derivados fosse um imperativo definidor da sua própria identidade. Isto fez com que alguns docentes do currículo da Secretaria de Educação começassem a perceber um certo tratamento distintivo que conferia aos docentes técnicos uma espécie de primazia. Por outro lado, um contingente significativo de alunos egressos do NATA começou a integrar as fileiras das universidades públicas estaduais, enquanto a absorção de ex-alunos dentro do universo profissional manteve-se em níveis talvez aquém dos esperados inicialmente.

 Veja a íntegra da entrevista no Observatório Jovem

2 comentários para “Rio de Janeiro tem escolas integrais em parceria com empresas”

  1. erick carneiro

    Moro em Pernambuco, e tenho um filho ai no Rio. Tem 15 anos, estuda 1ano e estou em busca de uma vaga em alguma escola integral. Ele mora em Nilópolis, gostaria uma mais próxima.

    Responder
  2. erick carneiro

    Moro em Pernambuco, e tenho um filho ai no Rio. Tem 15 anos, estuda 1ano e estou em busca de uma vaga em alguma escola integral. Ele mora em Nilópolis, gostaria uma mais próxima. Contato: 81 98327 0057 zap

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