O mantra “Faça o que ama” pode ser uma armadilha

Escolha Profissional

“O problema desse discurso vem justamente da convergência dos interesses dos indivíduos com os da empresa, que não partem dos mesmos pressupostos”, explica socióloga

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Da Revista Nimbus

“Não contrate um homem que faz seu trabalho por dinheiro, mas aquele que ama o que faz”. A frase é do filósofo norte-americano Henry David Thoreau, que conseguiu definir a partir dela o ideário capitalista do liberalismo do trabalho. Publicada em 1863, em seu livro Vida Sem Princípios (Editora Dracaena), ela resume as dinâmicas empregadas por grupos de Recursos Humanos nas principais empresas de sucesso na atualidade: rendimento e colaboração, em ambientes de trabalho divertidos.

O discurso “Faça o que Ama” (Do What You Love, em inglês) é cada vem mais defendido pelas elites econômicas e empreendedoras, especialmente para os jovens, e afirma que precisamos ponderar o que gostamos de fazer e transformar essa urgência em um empreendimento.

Entretanto, essa ideia pode esconder uma lógica perversa. A armadilha por trás do mantra é que quando trabalhamos com o que gostamos tendemos a viver pelo que os especialistas tem chamado de “empreendedorismo individual”. Ou seja, temos a tendência de somente beneficiamos a nós mesmos– sem aprender com as disputas de opiniões comuns nos ambientes organizacionais.

Essa é a provocação proposta pela historiadora deArte da Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos) Mika Tokumistu, que publicou um artigo intitulado “Em nome do amor” (In the Name of Love, em inglês). Tokumistu afirma que a lógica do “Faça o que ama” é “a mais perfeita ferramenta ideológica do capitalismo.Releva o esforço dos outros e mascara o nosso próprio trabalho. Esconde o fato de que se reconhecemos todo nosso trabalho como trabalho, temos a capacidade de criar limites para ele, demandando compensações justas e agendas mais humanas, que reservem tempo para a família e para o lazer”.

Para discutir essas questões, a Nimbus conversou com a socióloga Bárbara Castro, especialista em Assuntos do Trabalho e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FAPESP). Ela pesquisa as relações flexíveis do trabalho contemporâneo e suas implicações na legislação trabalhista e nas rotinas sociais do trabalho.

Bárbara, em que se sustenta esse discurso do “Fazer o que se Ama”, quando falamos na vida profissional?

Bárbara Castro – O que observo é uma ideia difusa que está presente em discussões tanto empresariais quanto de indivíduos que buscam mudar sua relação com o trabalho. Eu traduziria essas ideias como um desejo de uma parcela da população que trabalha em se identificar mais com as tarefas que realiza no seu dia-a-dia, como um grito pela busca de um sentido. Ao mesmo tempo, do lado empresarial, há um interesse em aproveitar ao máximo a produtividade do trabalhador. E uma das maneiras que os estudiosos de recursos humanos encontraram para isso é justamente tentar adaptar o ambiente e a organização do trabalho dessas empresas mais próximos desses desejos.

Quais são os prejuízos que essa lógica de um “trabalho prazeroso” pode esconder?

O problema do discurso “Faça o que você ama” vem justamente da convergência dos interesses dos indivíduos com os da empresa, que não partem dos mesmos pressupostos. No momento em que eles se cruzam, coincidem, as empresas colonizam esse discurso e o tornam funcionais aos seus interesses. Ou seja, no fim das contas, a apropriação de uma ideia que busca ser libertadora, da parte dos indivíduos, pode servir para aprisioná-los ainda mais em relações de trabalho que na aparência são uma coisa, mas continuam a reproduzir a dominação capital-trabalho. Quando não questionamos mais essa relação corremos o risco de parar de cobrar melhorias nas relações de trabalho.

É cada vez mais comum que as organizações proponham espaços de trabalho coletivo, em que os resultados são medidos por metas, e as práticas de trabalho são descentralizadas. Às vezes os grupos de trabalho nem mesmo se encontram. Como essas práticas impactam as lógicas do trabalho contemporâneo?

O interessante desse discurso é justamente buscar entender suas origens. Por que as pessoas não conseguem se realizar no trabalho que elas fazem, ainda que aquele seja o emprego dos seus sonhos ou a atividade que elas mais gostam de fazer? O que está de errado nessa equação? Gosto de pensar que precisamos retomar o debate sobre como o trabalho é organizado no capitalismo, para compreendermos que muito da angústia que sentimos hoje é a angústia que muitos trabalhadores e trabalhadoras sentiram ao longo do tempo. E a coincidência dessa angústia vem justamente do processo de alienação: não conseguimos nos reconhecer, muitas vezes, no resultado do nosso trabalho, porque não temos controle sobre ele. Ainda nas indústrias criativas quem tem a palavra final sobre formatos, processos e resultados é, muitas vezes, o cliente. Essa “desindentificação” gera frustrações e questionamentos. E esses questionamentos são fundamentais para tentarmos construir outras formas de se organizar o trabalho.

Por que é possível defender que a escolha profissional baseada na satisfação pessoal seja uma ideia individualista?

Ela se torna individualista no sentido de que não levou, até agora, a uma reflexão mais profunda sobre as causas do sofrimento no trabalho e com o trabalho. Esse sofrimento é coletivo. E é coletivo porque é consequência da maneira como o trabalho é organizado no capitalismo. O individualismo reside em não tratar desse problema de maneira coletiva, buscando soluções que resolvam a raiz do problema.

Isto se aplica a todas as profissões? Ou só certas áreas seguem esse pensamento?

Creio que sempre tenha sido uma aflição coletiva. Era a preocupação do Fourier, quando construiu sua ideia de falanstérios já no século XIX. A novidade, acredito, venha da promessa não realizada de que profissões associadas ao trabalho criativo dariam mais liberdade aos profissionais. Os discursos sobre o tema que mais vejo circular vem justamente das áreas de comunicação, marketing e arte. A frustração vem dessa promessa não cumprida.

E de que formas a ideia de “empreendedorismo” influencia esse comportamento?

O empreendedorismo vem de encontro com essa narrativa porque parece proporcionar um reino de total liberdade para o indivíduo se reinventar, ter controle sobre o tempo, o processo e o resultado do trabalho. O problema é, de novo, que o empreendedorismo na maior parte das vezes está inserido no setor de serviços, o que te leva a ter que seguir as demandas do mercado e as orientações dos clientes. Outro problema é que nem todo mundo tem vocação ou treinamento para empreender, e mesmo entre quem tem, é preciso dizer que existem inúmeras experiências fracassadas. É preciso falar sobre elas também, para que a frustação desses sujeitos não seja ainda maior. Não é que tenhamos que dizer “não tente, não faça, não vai dar certo”. Não se trata disso. A questão é a de compreendermos a realidade desigual na qual nos inserimos e complexificar o discurso de que você consegue tudo com esforço e trabalho. Nem sempre é assim. Temos estruturas desiguais na nossa maneira de organizar a economia e a sociedade e não existe espaço no topo para todo mundo no mercado, infelizmente

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