Pesquisa traz reflexão sobre gênero e ciência

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As expedicionárias das décadas de 1930 a 1950 conviveram em ambientes majoritariamente masculinos, mas várias delas produziram pesquisas consistentes

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Do Jornal da Unicamp

A participação das mulheres em expedições científicas no Brasil, nos meados do século passado, foi muito maior do que imaginamos. Esta ideia, embora recorrente na literatura sobre gênero e ciências e sobre história das mulheres, carecia de mais registros dessas “aventureiras”, carência que a historiadora Mariana Moraes de Oliveira Sombrio espera ajudar a suprir com sua tese de doutorado. “Em busca pelo campo: ciências, coleções, gênero e outras histórias sobre mulheres viajantes no Brasil em meados do século XX” é o título da pesquisa que ela desenvolveu sob a orientação da professora Maria Margaret Lopes, junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT), do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.

Segundo a historiadora, as expedicionárias das décadas de 1930 a 1950 conviveram em ambientes majoritariamente masculinos, mas várias delas produziram pesquisas consistentes e estabeleceram relações com a comunidade científica, numa atuação que ia muito além do papel de assistentes, geralmente reservado a elas. “Para saber mais sobre as 38 mulheres, tive que recorrer a outras fontes, sendo que de algumas, nada encontrei: desapareceram, ou porque não firmaram carreiras sólidas, ou porque eram apenas viajantes e não publicaram artigos. Por isso, acabei valorizando as mulheres que mantiveram relações estreitas com instituições científicas brasileiras e tiveram uma produção significativa.”

Em relação às trajetórias das cientistas expedicionárias, Mariana Sombrio identificou particularidades como a influência do casamento, que em sua opinião fazia muita diferença, para o bem e para o mal. “Algumas que se casavam com cientistas continuavam pesquisando e acompanhando o marido nas expedições, tornando-se suas principais colaboradoras; para outras, a carreira acabava, pois precisavam cuidar da casa e dos filhos. Por outro lado, Doris Cochran e as brasileiras Bertha Lutz e Heloísa Alberto Torres nunca se casaram, o que é uma característica de algumas das mulheres que se destacam no meio científico – mas isso não era regra, visto que Wanda Hanke, viúva, deixou um filho na Áustria e Betty Meggers também era casada.”

A pesquisadora observa que as expedicionárias eram em maioria brancas e de classe média – o que indica um recorte de classe e de raça dentro das instituições de pesquisa – e, também, que havia outros impedimentos além do matrimônio. “Enquanto aos homens era facilitado viajar para o curso superior na Europa, para as mulheres era difícil ingressar mesmo nas faculdades daqui. A educação feminina no Brasil só passou a ser mais valorizada a partir da década de 30, com a criação de universidades e faculdades de filosofia, ciências, letras e profissionalização do magistério. É também nos anos 30 que as salas de aula mistas tornam-se mais comuns.”

Em suas considerações finais, Mariana Sombrio retoma o argumento de que mais mulheres do que imaginamos participavam destas atividades de campo, embora a historiografia tradicional da ciência pouco trate delas, ressaltando grandes figuras masculinas como Carlos Chagas ou Adolfo Lutz. “Até hoje a ciência é uma prática elitista. É preciso relativizar a ideia romântica das expedições científicas como de aventureiros se embrenhando e enfrentando os perigos da selva, que ainda influencia o imaginário popular sobre o que é fazer ciências e contribui inclusive para reforçar um caráter masculinizante para essas práticas. É uma atividade como outras, dependente de muitas pessoas; e quando se olha para os documentos, elas aparecem.”

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