Estudantes de escola pública têm desempenho melhor na USP

Educação Ensino superior

O vestibular funciona? Pesquisa mostra que alguns fatores que favorecem a nota da Fuvest, prejudicam o desempenho no curso superior

Foto: Marcos Santos/USP Imagens Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Por Bárbara Lopes – Tô no Rumo

Características que favorecem o resultado dos estudantes no vestibular podem impactar de forma negativa o desempenho no curso superior, revela uma pesquisa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP).

O trabalho desenvolvido por Thais Baccaro, como tese de doutorado, mostrou que uma boa pontuação na Fuvest está associada a melhor rendimento no curso. Porém, fatores como sexo, renda e onde cursou o ensino médio, que influenciam positivamente o desempenho no vestibular, têm impacto inverso na trajetória acadêmica. Ou seja, alunos do sexo masculino, de renda mais alta e que cursaram o ensino médio em escolas particulares se saem melhor na Fuvest, mas, no curso superior, a relação se inverte. Outra descoberta da pesquisa é que estudantes que prestaram a Fuvest mais vezes têm desempenho inferior.

“Essas constatações suscitaram reflexões de que essas variáveis ajudam o aluno a ingressar no curso superior; no entanto, elas podem impactar de várias formas o rendimento acadêmico, inclusive negativamente. Outro ponto que merece ser destacado é que os alunos provenientes de meios econômicos menos favorecidos, uma vez que ingressam em uma universidade pública reconhecida mundialmente, tendem a se esforçar e buscam rendimento acadêmico elevado”, afirma Thais nas conclusões da pesquisa.

O professor Felipe Tarábola, vice-diretor da Escola de Aplicação da USP tem opinião parecida. “Uma vez ultrapassada essa barreira, do vestibular, o que começa a contar são outras variáveis. Muitos alunos de escola pública que ingressam na universidade conseguem elaborar suas dificuldades nos cursos e investem naquilo, com uma dedicação, para suprir dificuldades de habilidades, de bagagens cobradas nos diferentes cursos”, defende o educador, que em seu mestrado e no doutorado, em curso, pesquisa a trajetória acadêmica de estudantes de escolas públicas.

Para fazer o trabalho, Thais considerou dados de alunos que entraram em 12 carreiras na USP, entre 2005 e 2007, nas áreas de Ciências Exatas e Tecnológicas, Ciências Biológicas e Humanidades – dentro de cada área, escolheu cursos mais e menos concorridos. Dos 6055 ingressantes no período, 4237 concluíram o curso até o momento da análise. “Foi usada a média ponderada ao final do curso, incluindo as disciplinas com reprovação dos alunos. Essa média foi padronizada para que não houvesse distorções em virtude das características das carreiras selecionadas”, explica a pesquisadora.

Vestibular
O pano de fundo da pesquisa é refletir se o vestibular é o melhor mecanismo para selecionar os estudantes que cursarão uma universidade. Como aponta Thais Baccaro, houve uma expansão do ensino superior, mas com predomínio das instituições privadas. A pressão pela democratização dessa etapa de ensino – que se reflete na luta por cotas e por mais vagas – tem colocado em xeque o processo seletivo a partir do vestibular.

Cerca de 80% dos estudantes de ensino médio estão na rede pública. Porém, na USP, apenas 30,3% dos estudantes que entraram em 2014 fizeram o ensino médio todo em escola pública. Além disso, 64% dos matriculados têm renda familiar acima de cinco salários mínimos.

“O bom aluno para a Fuvest é o bom aluno para a universidade? E o bom aluno de um curso é o mesmo bom aluno de outro curso? Essas perguntas precisam ser feitas para pensar se a Fuvest é o melhor filtro, é o melhor instrumento para seleção. A Fuvest não está selecionando para si mesma, mas para a USP e para diferentes cursos da USP”, comenta Tarábola.

Um ponto que contribui nesse questionamento é que a quantidade de vezes que o estudante prestou a Fuvest, assim como a realização de um cursinho pré-vestibular, tem relação negativa com o desempenho no curso. “Um aluno que se prepara mais para passar nessa prova, talvez tenha se preparado menos para o que vem depois. O vestibular requer uma técnica, de mobilizar os conteúdos rapidamente, naquele momento de múltipla escolha, eliminar alternativas para aumentar seu potencial de acerto. Quando está se dedicando a isso, talvez esteja deixando de desenvolver outros tipos de habilidade, como a leitura, organização do pensamento, preparação de um seminário”, arrisca Tarábola.

Mas ele alerta que outros aspectos, não só da vivência escolar, podem ser desafios para os estudantes no ensino superior. “Algumas são dificuldades acadêmicas, para alguns, por exemplo, falta de bagagem em determinado conhecimento. Mas há também desafios pessoais. Algumas dificuldades externas à escolaridade têm impacto. A distância em que moram, tempo de deslocamento, situação familiar, a necessidade ou não de trabalhar são variáveis que pesam”, afirma.

A USP reluta em adotar políticas de cotas raciais, e mesmo sociais. Um dos motivos alegados é a suposta falta de preparo dos estudantes de escolas públicas. Porém, o próprio vestibular pode ser uma influência problemática no ensino médio. “A escola secundária, de modo geral, não se atém muito ao que vem depois do vestibular. Ela prepara para aquela prova específica, depois isso é reafirmado pelos cursinhos”, afirma Tarábola. Ele explica que a ideia de meritocracia perpassa o debate dentro da USP: o entendimento de que as vagas são bens escassos e que a excelência não é para todos. “Mas é interessante pensar que meritocracia é essa. Uma maneira de pensar isso é que não existe uma única forma de mensurar o que é mérito e que existem méritos diferentes. Existe um mérito que a Fuvest pode medir, mas existem méritos que podem ser medidos de outra forma”, acrescenta.

Um comentário para “Estudantes de escola pública têm desempenho melhor na USP”

Deixe um comentário

  • (não será exibido)

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>