Presença de mulheres nas ciências exatas depende de estímulo e políticas públicas

Escolha Profissional

Áreas como a engenharia ainda são predominantemente masculinas. Maior participação feminina permite as ciências respondam a questões da vida das mulheres

Debatedoras na mesa Meninas Cientistas Debatedoras na mesa Meninas Cientistas

Texto e foto: Bárbara Lopes

É importante estimular a presença de mulheres nas áreas de ciências exatas, tanto para ampliar o leque de escolhas aberto às meninas, como para que as ciências respondam a questões da vida das mulheres. Este foi o pano de fundo do debate Meninas Cientistas, realizado no Centro Cultural São Paulo, como parte da 1ª Semana Municipal de Ciência, Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento.

“A gente sofre com uma invisibilidade das questões das mulheres que passa por elas não estarem no espaço público para falar quais são suas questões. Estou no quarto ano, e eu tive cinco professoras, nenhuma negra. Eu era sempre a aluna negra da sala, nunca tinha mais de uma. Essa não é a sociedade. Quando eu saio da USP, eu vejo que a sociedade não é branca”, afirmou a estudante de engenharia de materiais da Escola Politécnica da USP Thatiane Lima.

A coordenação da mesa ficou a cargo da geógrafa Ros Mari Zenha, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Ela apresentou dados que mostram que as mulheres são maioria no ensino superior. Porém, há categorias profissionais em que elas são minoria: é o caso da engenharia (14%) e da economia (17,7%). Além disso, embora aumentando sua presença no mercado de trabalho, as mulheres sofrem restrições no mercado de trabalho, com salários menores e menos chances de atingir cargos em altos escalões. Isso se soma à exposição maior ao desemprego, ao assédio moral e à precarização.

Falta de estímulo
Um ponto presente entre na fala das participantes é a falta de estímulo que as meninas recebem, desde a infância, para se envolverem em áreas consideradas masculinas. A secretária municipal de Políticas para Mulheres, Denise Motta Dau, elencou a família, a escola e as produções culturais como espaços que reproduzem essa divisão. Um exemplo são os brinquedos para meninas (como bonecas e utensílios domésticos) e para meninos (como jogos). “Isso vai ter um impacto na formação e na autoimagem da menina. E lá na frente, isso vai se refletir nas suas expectativas de vida e de carreira. Sonhos, desejos, o que ela projeta como ideal para seu desenvolvimento”, afirmou. Na mesma linha foi a estudante da Poli. “Muitas vezes, a gente desencoraja. Seja com os brinquedos, seja com as falas. ‘Você tem certeza? Será que você vai conseguir?’”.

Outro aspecto são as dificuldades enfrentadas pelas mulheres que decidem seguir nas carreiras consideradas masculinas – e pelas mulheres em geral. “Uma coisa que atrasa, dificulta a carreira das mulheres é a hora que ela resolve ter filhos, a questão da maternidade. A USP tem três creches. Eu não consegui vaga. A minha pesquisa de campo ficou mais devagar, meu número de publicações quando a minha filha era pequena acabou diminuindo bastante, porque a universidade não dá esse apoio”, relatou Yara Marangoni, docente do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. Thatiane acrescenta o pouco acolhimento nos espaços mais masculinos. “Muitas vezes vemos brincadeiras, histórias de estupro. Existe todo um apagamento dessa discussão dentro da universidade”, criticou.

Parte da resposta para essa situação vem de políticas públicas que promovam a presença de mulheres em espaços considerados masculinos. Como explicou a secretária Denise Dau, isso passa por repensar a divisão do trabalho doméstico, com a participação do Estado. Trata-se da criação de creches e serviços como lavanderias e restaurantes públicos. E também a promoção de uma educação não-sexista. “Um Estado que enxergue essa diversidade e formule e execute políticas públicas com esse olhar é fundamental. Que atue na educação de que o trabalho reprodutivo não é natural da mulher”.

Construção civil
Na plateia, Alexandra Aparecida da Silva falou sobre sua história. Ela fez curso técnico em edificações, mas era sempre indicada para trabalhos de escritório. “Eu quero atuar no ambiente hard. Pegar poeira, ficar com a bota cheia de barro. Verificar também a parte da qualidade da obra. Eu perguntava para o meu chefe por que não tinha mulheres no comando do canteiro de obras. Era uma coisa que me incomodava muito. Uma vez eu tive a oportunidade de ser auxiliar do engenheiro executor da obra. Eu tive ajuda de todos os operários da obra e foi uma experiência muito boa”, contou. Ela perguntou sobre a diferença de força física entre homens e mulheres, como um empecilho para determinadas atividades. Ao responder, Ros Mari lembrou que durante os mutirões de casas populares em São Paulo, no início dos anos 1990, muitas mulheres assumiram a construção. Na época, o IPT fazia consultoria para o projeto e as empresas começaram a desenvolver sacos de cimento menos pesados, para obras de menor porte. Isso mostra que as barreiras muitas vezes podem ser contornadas para que todos e todas sejam incluídos.

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