Quem quer ser professor?

Trabalho

Marcada por condições difíceis de trabalho, a carreira docente tem dificuldade de atrair jovens profissionais. É nesse contexto que, em seis estados, os profissionais estão em greve

Assembleia de professores do Paraná (Wilson Dias/agência Brasil) Assembleia de professores do Paraná (Wilson Dias/agência Brasil)

No começo de maio, o professor da Universidade de São Paulo Vladimir Safatle escreveu uma coluna na Folha de S.Paulo com o título “Não seja professor. Ele fazia referência à dura repressão ao protesto de professores no Paraná e às condições de trabalho e salário nessa carreira. Para muitos leitores, o chamado deve ser entendido mais como uma provocação do que como um conselho a ser levado ao pé da letra. Porém, a realidade é que o magistério, principalmente nas redes públicas, vem falhando em atrair jovens profissionais.

Professora da Faculdade de Educação da Unicamp, Dirce Zan começou a pesquisar os jovens professores partindo do quadro de outros países onde houve uma forte expansão do ensino médio. Em Portugal, por exemplo, com a abertura de vagas, muitos professores novos chegaram, diminuindo a idade média do corpo docente. O Brasil está vivendo um processo similar em termos de ampliação das vagas na educação básica. Ao analisar os dados quantitativos do Brasil, o resultado foi diferente.

“Por incrível que pareça, a gente não está tendo um rejuvenescimento do corpo docente na educação básica como a gente imaginava. A idade média do professor da educação básica, segundo dados da Pnad, é de 38 anos. O que esses dados estatísticos estão apresentando? Têm entrado mulheres mais velhas, que estão retornando ou entrando no mercado de trabalho depois de já ter criado os filhos. E, nos momentos de crise econômica, tem também um aumento da população mais velha vindo trabalhar na educação, possivelmente a migração de profissionais de outras áreas, que começam a dar aula como outra opção ou possibilidade de complementação de renda”, explica.

» Veja dados sobre o perfil docente nas redes públicas

Fuga da profissão
A fuga da carreira docente e da atuação na escola pública acontece em vários momentos: na escolha profissional, durante a graduação ou depois do ingresso na rede. Com a expansão da educação básica, houve um aumento no investimento na formação de professores. “A gente ampliou a oferta das licenciaturas, especialmente nos institutos federais, na expansão da universidade pública federal, mas não necessariamente essas vagas têm sido preenchidas. Aqui na Unicamp a gente tem detectado uma evasão grande nas licenciaturas”, avalia Dirce. “Não adianta ter o curso se os alunos não veem nessa carreira uma atratividade, não veem como um desejo, como uma possibilidade de crescimento profissional trabalhar como professor”.

Durante o curso, o estágio em escolas públicas tem efeito na perspectiva dos estudantes. “A gente fez um levantamento com nossos alunos de licenciatura quando fizemos uma avaliação do estágio. Antes do estágio, na sua maioria, eles queriam dar aula na escola pública. E após o estágio isso reduz, quase inverte. Após o estágio em que muitos deles vão para a escola pública, vários passam a não ter mais a escola pública como campo de trabalho. Para muitos é mesmo um choque”, afirma.

Ainda não sendo tantos, muitos jovens optam pela profissão, principalmente movidos por uma ideia de transformação social, pela possibilidade de fazerem diferença. “A parte legal é poder estabelecer um diálogo, não vou nomear como filosófico, mas um debate de ideias, de construção de pensamento com outros seres humanos. Isso é a parte mais prazerosa”, conta Ronny*, 31 anos, professor de filosofia em uma escola estadual na zona oeste de São Paulo.

Porém, as condições de trabalho têm um forte efeito de desmotivação. “Essa escolha política pela escola pública teve mais quando eu ainda não estava dentro da estrutura. A estrutura tem me desanimado muito. Na escola onde estou efetivo, não chegam os recursos necessários para um trabalho de qualidade. O público me interessa, mas nessas condições que a gente tem, parece que não faz diferença. A sensação é que não dá para realizar essa ideia”, desabafa. Para ele, os problemas que mais pesam são o grande número de alunos por sala, a indisciplina dos estudantes e a cobrança para utilizar um material didático produzido pelo estado que ele considera de baixa qualidade.

A desistência da profissão – ou pelo menos da rede pública – pode vir depois. Dados obtidos pelo Estadão em 2013 indicam que, entre 2008 e 2012, a cada ano uma média de 3 mil professores concursados na rede estadual de São Paulo pediram exoneração. Ronny considera se juntar a essa estatística. Ele conta que muitas vezes pensa em desistir. “Dá um medo desse futuro. Olhar professor só reclamando, só cansado. Eles tentaram, tentaram todos esses anos, e chegou um momento da vida que já não tinham muito como mudar. Continuam por falta de opção. Eu ainda tenho outras opções”.

Mobilizações
É nesse cenário que, em sete estados, professores decidiram parar. Há greves no Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Pará, Goiás e Sergipe. Em Pernambuco, os professores decidiram parar novamente a partir do dia 29. A principal reivindicação é aumento salarial (veja abaixo as demandas da Apeoesp). Isso tem colocado à prova o discurso – comum não só entre políticos, mas em toda a sociedade – da necessidade de priorizar a educação e valorizar o professor. Em São Paulo, Ronny aponta que o governador Geraldo Alckmin nega que exista uma greve e que a mídia também não dá visibilidade para a questão.

Porém, a greve continua e, com 70 dias completados na sexta-feira, dia 22, já é uma das mais longas da história. Segundo o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), na assembleia que decidiu pela continuidade da greve estavam presentes 20 mil pessoas – a Polícia Militar estima em 3 mil. Isso mesmo com uma decisão da Justiça autorizando o governo estadual a cortar o pagamento dos professores parados.

“Eu vejo isso como bastante animador, como uma possibilidade de quem sabe a gente, em especial no estado do Paraná isso tem conseguido ser feito, de chamar a atenção do país, da mídia, para essa situação bastante difícil do professor da educação básica. Essa movimentação eu vejo com muita satisfação. A Apeoesp e outros sindicatos, mesmo com limitações ou enfraquecimento que possa ter tido na luta sindical nos últimos tempos, vêm mantendo uma agenda de atuação no sentido de defesa da educação básica e das condições de trabalho para esse professor”, afirma Dirce.

* O sobrenome foi omitido a pedido do entrevistado

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