Transexuais buscam representatividade no ensino superior

Educação Ensino superior

A formatura do Transcidadania e entrada de estudantes transexuais em universidades pelo Sisu são marcos importantes para a ampliação da diversidade na educação

Formatura do programa Transcidadania. Leon Rodrigues/Secom Formatura do programa Transcidadania. Leon Rodrigues/Secom

Da Agência Brasil e Prefeitura de São Paulo

A formatura da turma do Transcidadania e entrada de estudantes transexuais em universidades federais pelo Sisu são marcos importantes para a ampliação da diversidade na educação, principalmente no ensino superior, e para a cidadania das pessoas trans.

O espaço acadêmico ainda é pouco ocupado por trans e travestis e a representatividade na universidade é, para Ana Flor Fernandes Rodrigues, de 19 anos, fundamental. A jovem, que é moradora de Várzea, bairro do Recife onde fica a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fez o Enem pela segunda vez e teve a felicidade de ver seu nome entre os aprovados no curso de pedagogia. Para Ana Flor, esta é uma oportunidade de ampliar a visão que a sociedade tem da comunidade trans: “A pedagogia agora vai fazer com que eu consiga falar sobre mim”, explica.

A opinião é compartilhada por Amanda Palha, aprovada em primeiro lugar para o curso de Serviço Social, também na UFPE. “O olhar de fora tem dificuldade de captar algumas nuances da nossa realidade. Sendo sujeitos dessa produção teórica, a relação entre a teoria e a realidade tende a ser mais fácil. Não é uma garantia, mas tende a ser mais fácil”, explica a travesti de 28 anos.

Ana Flor acredita que, com o tempo, a inserção da população de trans e travesti no espaço acadêmico possa mudar as relações na sociedade como um todo, reduzindo o preconceito. “Quando vejo mais pessoas trans e travestis entrando na universidade, consigo ver que elas vão usar o diálogo para destruir essa opressão estrutural. Futuramente será possível um diálogo mais saudável com as pessoas”, espera.

O Enem foi a porta de entrada de Amanda e Ana Flor na universidade. Para Amanda, ter uma estrutura familiar sólida e contar com apoio no trabalho foram fatores determinantes para conseguir estudar e se preparar. “Foi possível para mim porque a relação com a minha família era positiva, porque consegui concluir o ensino médio, tive uma rede de amigos que me deram suporte, tive a chance de trabalhar na área e descobrir que gostaria de estudar serviço social. Eu tive acesso a uma educação popular de qualidade que poucas pessoas têm”, explica.

Ana Flor espera que sua aprovação seja um empurrão para que as pessoas do seu bairro possam se sentir capazes de estudar na universidade que está a dez minutos de suas casas: “Eu me sinto muito realizada, porque quando eu olhava para a UFPE, eu sempre via algo muito distante de mim. Acredito que, da minha rua, eu seja a primeira pessoa que conseguiu passar. Isso mostra que por mais que a UFPE esteja no bairro onde eu moro, as pessoas do bairro onde eu moro não estão na UFPE. Para além de travesti, negra, periférica, eu falo também do bairro onde eu moro”, critica.

Cidadania
O programa Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo, acaba de completar um ano. O programa busca enfrentar um dos principais problemas da população trans: os altos índices de exclusão já na educação básica. Voltado para travestis e transexuais em situação de vulnerabilidade social, o Transcidadania oferece uma bolsa, condicionada a ações de elevação da escolaridade e qualificação profissional. Em 2015, o programa teve 100 participantes, das quais duas tiveram notas no Enem entrar em uma universidade. Uma delas é Paloma Castro. “A minha vida mudou completamente depois do programa. Ele me fez recuperar meus valores como pessoa, meu caráter, minha dignidade, e hoje eu posso sonhar com um futuro melhor para a minha vida pelos meus estudos, e não em um mundo de prostituição”, disse Paloma. Para 2016, o programa será ampliado para 200 participantes e terá a bolsa corrigida de R$ 840 para R$ 910.

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