A volta às aulas nas escolas ocupadas

Mobilização

Jovens que participaram do movimento contra a proposta de reorganização do governo estadual contam as mudanças que estão vendo e as expectativas para este ano

Foto: Ocupação Arthur Chagas, no Facebook Foto: Ocupação Arthur Chagas, no Facebook

22/02/2015

A segunda-feira, 15 de fevereiro, foi o primeiro dia de aula para quase todas as escolas da rede estadual de educação de São Paulo. Nas escolas que foram ocupadas no ano passado, em protesto contra a proposta de reorganização do governo, a volta às aulas foi motivo de expectativa e apreensão. Como estaria o clima? Haveria abertura para a participação dos estudantes? Ou represálias a quem esteve nos protestos? Conversamos com alguns alunos de escolas ocupadas para saber.

Um ponto comum é o fato de as direções se dizerem abertas ao diálogo. “A direção está procurando mais a gente, procurando a nossa opinião”, conta Fernanda Freitas, de 17 anos, aluna da EE Diadema, a primeira escola a ser ocupada em 2015. Mas outros jovens veem essa procura com desconfiança. No EE Brigadeiro Gavião Peixoto, em Perus, a maior escola estadual de São Paulo, a estudante Vanessa Alves, de 17 anos, não acredita nessa abertura. “ A direção está convocando para abrir o diálogo, mas é um diálogo deles. Não é totalmente aberto: eles propõem e a gente vê se aceita ou não”, critica Vanessa.

A situação é mais tensa na EE Maria José, na Bela Vista. Lá, houve uma tentativa violenta de desocupação em dezembro e, no episódio, o diretor teria agredido uma estudante. A aluna Lilith Passos Moreira, de 15 anos, diz que o diretor não está indo à escola no período da manhã, para evitar o encontro com a jovem. “A vice-diretora está tentando dialogar com a gente sobre o grêmio, mas a gente desconfia um pouco. A gente não sabe se ela está fazendo isso para ter algum tipo de controle. Mas estamos conversando. Eu fui conversar com ela sobre nossas ideias, sobre conselho escolar, ela ouviu”, diz Lilith.

Na Gavião Peixoto e na EE Arthur Chagas, em Sapopemba, houve mudança na direção devido às denúncias feitas pelos estudantes. “Na ocupação, a gente fez a denúncia que o diretor era ausente. E também as dependências da escola não condiziam com os documentos enviados para a Diretoria de Ensino. A gente fez a denúncia por escrito, fizeram uma auditoria e descobriram alguns atrasos. Ele foi exonerado”, relata Vanessa. Mayara Alves, de 18 anos, fala que apresentaram à Diretoria de Ensino denúncias de “materiais que a gente encontrou na escola, que não estavam em uso, e o abuso de poder da diretoria”, que obrigava alunos a rezarem e impedia o acesso ao banheiro feminino por uma estudante trans.

Grêmios
Neste ano, haverá eleições para grêmio em todas as escolas estaduais, com um calendário unificado, anunciou a Secretaria de Educação. As chapas devem ser inscritas até 17 de março e a votação está prevista para acontecer em abril. Os estudantes que participaram das mobilizações acreditam que esta é uma oportunidade para ampliar o debate dentro de cada escola. “A nossa luta agora vai ser dentro das escolas na maior parte do tempo. A gente conseguiu uma movimentação muito grande no ano passado, com as manifestações e a ocupação”, avalia Fernanda. A preparação para as eleições já começou na Gavião Peixoto. “A gente precisa se organizar, porque são 5 mil estudantes”, afirma Vanessa.

Na EE Emygdio de Barros, no Butantã, está sendo preparado um congresso da escola, como parte do processo de elaboração do projeto político-pedagógico. “A direção tentou enrolar um pouco, mas chegou a um consenso e a uma data, de 21 a 24 de março. A gente pretende discutir as mudanças que a gente quer que aconteçam na escola, o que precisa melhorar”, explica Yasmin Massimino, de 16 anos.

Disputa de narrativas
As ocupações também tiveram impacto na prática de alguns professores, que se sentem incentivados a fazer as aulas em formatos mais participativos. “Os professores estão tentando fazer um pouco diferente, aceitando a gente sentar em semicírculo, tentaram conversar com todos os alunos, saber mais sobre as ideias e o que eles querem depois de terminar a escola”, afirma Yasmin. “Alguns professores, que apoiaram a ocupação, estão fazendo rodas de conversa. Outros estão difamando a ocupação em outras salas, falando que quem ocupou sumiu com material, sem ter prova alguma”, conta Marcela Jesus, de 16 anos, aluna da EE João Kopke, nos Campos Elíseos.

Esse tipo de relato é comum em outras escolas. Para os jovens, uma das tarefas para este ano é combater os discursos negativos sobre sua mobilização. “Tem muita coisa que a gente precisa fazer dentro da escola para desconstruir a ideia que foi formada. As ocupações foram muito criminalizadas. Falavam que a gente estava quebrando coisas, o que não é verdade”, diz Lilith. “O que a gente fez no Arthur [Chagas] foi muito impactante, até hoje gera comentário. Gerou muito ponto negativo, por conta da diretora, que fazia a cabeça dos vizinhos. Mas os alunos mostraram para a comunidade que não é isso. Que a gente conseguiu e a escola mudou. Até pais que estavam contra, hoje em dia elogiam”, comemora Mateus Guedes de Santana, de 17 anos.

Além da oposição de alguns professores, funcionários e estudantes, há denúncias de retaliação aos jovens que participaram do movimento das ocupações. “Eu fui transferida, mas minha mãe conseguiu voltar. E estou sendo processada por dano qualificado e tentativa de retirada de direito ao trabalho”, fala Vanessa. Também na EE Emygdio, Yasmin conta que uma colega não conseguiu vaga. Os jovens também estão acompanhando as denúncias de transferências compulsórias de período, como na EE Fernão Dias, em Pinheiros.

Muitas escolas foram reformadas e melhor equipadas antes do início das aulas. Mas, em diversos casos, as salas continuam cheias. “Na segunda-feira, tinha sala que estava tão superlotada que tinha aluno sentado no chão. Aí eles arrumaram carteiras e conseguiram ter aula. Mas as salas estão cheias, com cerca de 45 alunos”, relata Marcela, da EE João Kopke. Lá, seis salas foram fechadas. Segundo a Apeoesp, sindicato dos professores estaduais, mais de mil salas foram fechadas em todo o estado. A entidade diz que, após recuar no fechamento de escolas, o governo está fazendo uma reorganização “disfarçada”. “Na maioria das escolas do centro, foram fechadas salas. É importante que os alunos saibam por que as salas estão lotadas”, diz Lilith.

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