“Na minha escola não tem educação sexual”

Mobilização

Mesmo em queda, taxa de fecundidade adolescente no Brasil é quase o dobro de outras regiões do mundo. Jovens falam sobre os desafios diante deste cenário e seus planos para o futuro

Jamilly, 14 anos. (Foto: UNFPA) Jamilly, 14 anos. (Foto: UNFPA)

Da ONU

Segundo dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a taxa de fecundidade adolescente no Brasil passou 86 para cada 1 mil habitantes em 2000 para 75,6 em 2010. Mesmo em queda, esse indicador é quase o dobro de outras regiões do mundo, nas quais a média é de 48,9 por 1 mil. Segundo o levantamento, a maior incidência de gravidez na adolescência ocorre entre jovens de classes mais pobres.

Diante desse cenário, o UNFPA ouviu histórias de meninas e meninos de Recife (PE) para saber como enfrentam os desafios da idade e o que esperam para o futuro, às vésperas do Dia Internacional da Juventude, em 12 de agosto.

Jamilly Emanuelle, de 14 anos, afirma que sua principal preocupação como adolescente é justamente engravidar ou contrair alguma doença sexualmente transmissível. Ela diz contar com a mãe para obter informações e se prevenir, uma vez que não recebe esse tipo de aconselhamento no ambiente escolar. “Na minha escola não tem educação sexual”, diz. “Moro só com minha mãe e ela sempre me fala que, se eu tiver relação (sexual) com alguém, para me prevenir, para não engravidar muito cedo, essas coisas. Se eu precisar, me sentirei confortável em pedir a ajuda dela”, afirma.

Jamilly conta que ao menos três de suas amigas já engravidaram, sendo que, uma delas, de 13 anos, sofreu com a rejeição da família, teve de se mudar para a casa da tia e desistir dos estudos. “Se eu engravidasse cedo iria perder minha juventude, e meu sonho é acabar os estudos”, diz Jamilly, completando que pretende se tornar aeromoça diante de seu gosto por viagens.

O também recifense Paulo, de 26 anos, acredita ser importante não desistir dos estudos, mesmo frente a dificuldades. Estudante bolsista do curso técnico de enfermagem, ele conta que uma colega acabou de ter filho e está se esforçando para conseguir conciliar a maternidade com a formação profissional. “Ela não pode parar o curso, recebeu essa licença pela escola por conta da gravidez, mas precisa seguir o curso para não perder a bolsa”, explica o jovem.

Paulo diz que lembra constantemente as amigas e amigos sobre a necessidade de usar camisinha. “Sempre estou com camisinha sobrando, já até cheguei a distribuir lá no curso. É muito importante a pessoa se prevenir”, declara, declarando que outra ameaça atual para os adolescentes é o vírus zika, também transmitido pela via sexual.

Mas há jovens que decidem se casar cedo, aguardando o melhor momento para ter filhos. É o caso de Débora, de 21 anos, que se casou aos 17 anos com um amigo de infância. Estudante do segundo ano do curso de cabeleireira, ela diz que seu sonho é ter seu próprio negócio. “Sou trabalhadora, me esforço muito e sou boa menina. Meus pais faleceram mas tenho minhas duas irmãs, avó, cunhado, primos e seis sobrinhos”, conta.

Débora pretende ter três filhos, mas só quando completar 25 anos. Sua irmã, atualmente com 18, ficou grávida aos 14. “Mas eu me previno, uso camisinha e tomo remédio, ainda não quero ter filhos”, diz, completando que seu marido também quer esperar, para antes ter carro, trabalho e “ajeitar a casa”. “Me imagino grávida mexendo na barriga e saber que meu bebê está bem. Eu quero ter uma menina”.

 

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