Faz sentido separar os esportes por gênero?

Mobilização

As diferenças no desempenho esportivo de homens e mulheres já foram bem maiores. Além disso, a integração pode ajudar a descontruir o machismo, não só nos esportes, mas na sociedade

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Texto original: “Is Gender Segregation in Sports Necessary?”, de Alice Sanders, no site How We Get to Next

* Observação: as pesquisas citadas no texto se baseiam em pessoas cis – ou seja, que se identificam com o sexo que lhes foi designado no nascimento. O Comitê Olímpico Internacional prevê a participação de atletas transexuais nas competições, reconhecendo sua identidade de gênero. Para mulheres trans, a única restrição é em relação aos níveis de testosterona. Para homens trans, não há restrições.

O argumento mais comum para a separação por gênero nos esportes é que homens são mais fortes que as mulheres. Isso é mesmo verdade? Se for, é motivo para que homens e mulheres não joguem juntos?

Nós aceitamos, e esperamos, integração entre homens e mulheres em diversas outras áreas: na escola, no trabalho, em ambientes sociais. Até a ideia de banheiros mistos vem ganhando espaço na sociedade. Mas esportes continuam segregados e vale a pena analisar o impacto dessa separação.

Diferenças biológicas
Antes, porém, vejamos o que diz a ciência. Um estudo publicado em 2010 no Journal of Sports Science and Medicine examinou os avanços em recordes mundiais e as performances dos 10 melhores atletas em 82 esportes, ano a ano desde 1896, início da era olímpica moderna. Segundo os autores, as mulheres não são tão rápidas ou fortes quanto os homens. Fatores genéticos e hormonais afetam “a altura, o peso, a gordura, a massa muscular, a capacidade aeróbica e o limiar anaeróbico”.

Os dados mostram uma diferença média de 10% na performance de homens e mulheres. As diferenças podem ser maiores ou menores dependendo do esporte – as menores estão nos 800 metros livres da natação (5,5%) e as maiores no levantamento de peso (36,8%). Em geral, as mulheres se aproximam mais dos homens em esportes que dependem de vigor aeróbico, como corridas de longa distância.

Um ponto interessante é que, por um período, as mulheres pareciam estar alcançando os homens. No último século, os tempos femininos melhoraram mais que os masculinos. Isso se deve, principalmente, ao acesso que as mulheres começaram a ter a elementos que os atletas precisam para melhorar – como convites para eventos importantes, e melhores equipamentos e treinamento. O ritmo diminuiu nas últimas décadas e praticamente estabilizou em 1983. As melhores atletas femininas e os melhores atletas masculinos vêm melhorando na mesma proporção.

Isso pode mudar? As mulheres podem alcançar os homens? A verdade é que ninguém sabe ao certo. A história das mulheres no esporte é marcada por um aumento gradual no acesso a privilégios que as tornam atletas melhores e pode ainda haver fatores não descobertos que ajudem a diminuir a diferença. Os avanços na ciência esportiva podem ajudar nisso. O treinamento de alto nível está se tornando cada vez mais específico, não apenas para aquela modalidade e gênero, mas para cada indivíduo.

Esses avanços ajudam tanto homens como mulheres, mas a maioria dos esportes, principalmente os coletivos, é historicamente território masculino. Grande parte dos estudos científicos têm como foco homens, não mulheres. A maioria das pesquisas esportivas e dos treinos são elaboradas tendo homens como alvo. Assim, mulheres devem se beneficiar do treinamento específico.

Mas essa é apenas uma parte da história, uma que parte do princípio que os atributos físicos são o mais importante nos esportes. Mas, principalmente para esportes coletivos, não é bem assim.

Esporte contra o machismo
Não é apenas a força ou a velocidade que fazem um bom jogador e os dados não necessariamente indicam que as equipes deveriam ser separadas pelos critérios físicos. Claro que ajuda a rapidez com que aquele atleta chega na bola, mas outras habilidades são tão ou mais importantes. No futebol, por exemplo, controle de bola, visão tática, cooperação e espírito de equipe são partes vitais do jogo. Além disso, as mulheres são boas em resistência em atividades que duram mais de duas horas – um aspecto em que há evidência científica que elas podem superar os homens, devido a irradiação de calor e conversão de gordura em energia de forma mais eficiente.

A política social teve (e tem) um impacto muito grande na performance das esportistas ao longo do último século. Mas e se os esportes pudessem influenciar na política social?

Os times masculinos existem num sistema dirigido por homens que passaram pelo próprio sistema: homens que se tornaram treinadores e autoridades esportivas. É um sistema que ensina uma versão da masculinidade – tóxica e hierárquica – é uma das características mais importantes que se deve ter. Eric Anderson, professor de esportes, masculinidades e sexualidades na Universidade de Winchester (EUA) define isso como “masculinidade ortodoxa”. Ele defende que ela faz com que jogadores de esportes coletivos cultivem uma cultura de homofobia e machismo.

Frequentemente, homens que jogam em equipes masculinas de alto nível socializam principalmente com companheiros de time. Assim, os laços que eles formam com pessoas de fora do mundo esportivo – especialmente mulheres – passam pelo prisma da masculinidade com que eles convivem no dia a dia. Isso significa que é uma chance maior desses homens terem atitudes negativas com relação às mulheres.

Isso se manifesta nas estatísticas de estupro em universidades dos Estados Unidos. Um estudo dos anos 1990, dos pesquisadores Jeff Benedict e Todd Crosset, mostrou que enquanto os homens estudantes-esportistas eram apenas 3,3% do corpo discente, eles somavam 19% dos agressores em casos de violência sexual e 35% nos casos de violência doméstica.

Integrar homens e mulheres nos esportes pode mudar isso. A pesquisa de Anderson acompanhou homens heterossexuais líderes de torcida, que haviam sido dos times de futebol americano no ensino médio. Até esse ponto, eles expressavam pontos de vista machistas, tanto em relação a mulheres atletas como às mulheres em geral. Os homens que participaram de esportes com mulheres tiveram uma mudança de mentalidade expressiva. Eles passaram a vê-las como boas atletas, fortes, capazes e talentosas. Um dos participantes no estudo afirmou: “Eu achava que mulheres eram fracas, mas agora que sei que não é verdade. Eu nunca imaginei que mulheres fossem tão atléticas. Eu odiava esportes femininos. Mas essas mulheres são atletas. Elas fazem coisas que eu jamais conseguiria e aposto que há muitos esportes em que as mulheres podem ir melhor”. E tem mais. “Quase todos contaram que passaram a ver mulheres como mais que objetos sexuais”, explica o pesquisador. “Todos disseram que passaram a respeitar e valorizar mulheres como amigas, colegas de equipe e líderes competentes”.

A separação nos esportes é prejudicial para as relações de gênero e para a sociedade. Nós nos preocupamos que mulheres torçam o tornozelo ou quebrem a perna se elas jogarem em times mistos, mas, na verdade, as consequências dessa segregação são muito piores para as mulheres.

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