Estudantes ressaltam importância de formação para a cidadania no ensino médio

Mobilização

Jovens que participaram de ocupações em 2015 criticam Medida Provisória de reforma do ensino médio

Foto: Danilo Ramos/ RBA Foto: Danilo Ramos/ RBA

A reforma do ensino médio anunciada pelo governo federal vem gerando reações entre estudantes e educadores. Um dos pontos criticados é a opção por um ensino voltado à formação para o mercado de trabalho, tirando espaço da formação para a cidadania.

A Medida Provisória 746/2016 estabelece que, a partir do segundo ano, os estudantes poderão optar por percursos formativos em uma das áreas de conhecimento – Linguagens, Matemática, Ciências Humanas ou Ciências da Natureza – ou pela formação profissional. Porém, as redes de ensino não são obrigadas a oferecer todas as modalidades. Para estudantes que participaram das ocupações de escola em 2015, a medida não representa um aumento na liberdade de escolha.

» Veja o posicionamento da Ação Educativa sobre a reforma do ensino médio

“Eu acredito que, durante a escola, os alunos se formam como cidadãos. O caráter vai se formando, as opiniões e gostos também se formam durante a escola. Acho que é limitar um aluno fazer ele escolher coisas que ele não conhece direito. Ter que escolher muito cedo piora ainda mais a nossa situação”, afirma Fernanda Freitas, de 17 anos, aluna da EE Diadema. Vanessa Alves, da EE Brigadeiro Gavião Peixoto, em Perus, também critica a proposta. “A gente como estudante está no início do ciclo educacional. Hoje a gente tem apostilas absurdas, que não condizem com as nossas necessidades, voltadas para passar no Enem. Acho que ainda não temos condições de optar pela sociologia ou educação física. Ambas são extremamente importantes. Não que a gente não tenha capacidade de escolher o que é melhor para a gente, mas nesse começo todas as matérias são primordiais”, defende.

Professora do ensino médio no Instituto Federal de São Paulo e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, Ana Paula Corti argumenta que a divisão do currículo em áreas do conhecimento ainda não foi absorvida por estudantes e professores, sendo mais um obstáculo para uma escolha nesses moldes. “É uma especialização muito precoce e que não é demandada pelos alunos. O que eles querem é um ensino de matemática com qualidade, um ensino de física com qualidade, em que eles aprendam. Essa ideia compromete a ideia do ensino médio como educação básica, ou seja, o básico a que todo cidadão precisa ter acesso”.

Existe também uma preocupação com a continuidade das trajetórias educativas após o ensino médio. “Eu vejo por mim mesma: no primeiro ano, eu queria muito ser médica. Hoje, quero ser jornalista. E eu decidi isso após viver um período da minha vida que eu tive mais contato com o social, com Sociologia, Filosofia, História”, lembra Fernanda. “Essa reforma não nos prepara para vestibulares. Oferecer cursos técnicos é quase um ‘ah você não precisa de faculdade, só um curso está bom’”, critica a estudante.

Um dos argumentos em favor da reforma é o fato de apenas uma minoria dos estudantes chega ao ensino superior – portanto, o investimento em educação profissionalizante ainda durante o ensino médio supriria essa lacuna. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (PNAD/IBGE) de 2014, um terço dos jovens de 18 a 24 estão em cursos de graduação, mestrado ou doutorado. Trata-se de um crescimento expressivo, considerando que dez anos antes, esse índice era de 20%.

“Nas entrelinhas desse discurso, de que os jovens não entram na universidade, tem uma proposta de restringir o acesso ou tratar o problema do acesso como algo natural e esperado. Quem luta por educação como direito humano, para todos, não pode admitir uma fala como essa. Ela naturaliza uma desigualdade no acesso à educação”, comenta Ana Paula Corti.

“Esse projeto vai contra tudo aquilo que a gente fez no ano passado. O motivo principal para isso é criar mão de obra barata”, acredita Lilith Passos, estudante que participou da ocupação da EE Maria José (centro) em 2015. Os jovens prometem mais mobilizações contra a Medida Provisória. “Todo mundo começou a ter mais senso crítico dentro da escola. A ocupação do ano passado traz frutos que a gente plantou no ano passado. A gente sabe como se mobilizar , como dialogar com a sociedade”, promete Vanessa.

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