Quem são os jovens que não estudam nem trabalham

Trabalho

IBGE aponta um em cada quatro jovens nessa situação; especialistas questionam o rótulo “nem-nem”

Foto: USP Imagens Foto: USP Imagens

Cerca de um em cada quatro jovens não estavam na educação formal ou ocupados no mercado de trabalho em 2015, segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE. São os chamados “nem-nem” – que nem estudam, nem trabalham. Porém, a denominação vem sendo criticada por especialistas, por mascarar diferentes realidades. Na faixa de 15 a 29 anos, 22,5% dos jovens estavam nessa situação, o que representa um crescimento de 2,8 pontos percentuais na comparação com 2005 (19,7%). A maior concentração está entre os jovens de 18 a 24 anos. Para esses, o índice de pessoas fora do estudo e do trabalho é de 27,4%. Esses dados se referem à semana em que a pesquisa foi feita, em 2015.

Em um seminário da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre a pesquisa Transição Escola-Trabalho (PDF), feita com jovens de todo o Brasil em 2013, especialistas questionaram essa classificação. Para Laís Abramo, diretora da Divisão de Desenvolvimento Social da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) e ex-diretora da OIT no Brasil, uma formulação mais precisa seria “jovens que não estudam e não estão ocupados no mercado de trabalho”. Os resultados da pesquisa, realizada em parceria com universidades e órgãos governamentais, apontam para uma grande complexidade de trajetórias, em que as etapas de formação escolar e inserção no trabalho não são lineares, mas sim com idas e vindas nessas duas esferas. “As trajetórias são pontuadas por interrupções e abandonos, mas que não são definitivos, por morte na família, doença, separação dos pais. Essas interrupções têm impacto, causam dificuldades. Mas os jovens conseguem retomar depois”, explicou Gustavo Venturini, professor de Sociologia da USP e um dos coordenadores da pesquisa.

Além dos estudos e do mundo do trabalho, a vida familiar também é um aspecto importante para entender a situação desses jovens. O IBGE informa que houve um aumento do número de rapazes que não estudavam nem trabalhavam – de 11,1% em 2005 para 15,4% em 2015. Ainda assim, o número de mulheres nessa condição é bem maior: 29,8%. Entre as mulheres que não estavam estudando nem ocupadas no mercado de trabalho, 91,6% cuidavam de afazeres domésticos, com uma média 26,3 horas semanais de dedicação. Já entre os homens nessa situação, 47,4% fazem trabalho doméstico, somando 10,9 horas semanais. “Uma parte importante dessas jovens que não estão estudando nem ocupadas no mercado de trabalho estão desenvolvendo esse trabalho doméstico. Quando falamos que não trabalham, não damos conta da dimensão de gênero. Estamos dizendo que o que essas mulheres jovens fazem, o trabalho doméstico não remunerado, não é trabalho”, argumentou Laís Abramo.

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