Estudo mostra mudanças e persistência de desigualdades de gênero e raça em 20 anos

Trabalho

Publicação do Ipea analisa dados sobre educação, trabalho e família entre 1995 e 2015

Marcha das Mulheres Negras (Foto: Tiago Zenero/PNUD Brasil) Marcha das Mulheres Negras (Foto: Tiago Zenero/PNUD Brasil)

Em 20 anos, as famílias mudaram, a escolarização média da população aumentou, o rendimento médio do trabalhador cresceu. Mas as diferenças entre homens e mulheres e entre brancos e negros seguem como marcadores importantes para pensar os arranjos familiares, a educação e o trabalho. A publicação Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça – 1995 a 2015, do Ipea, que analisou dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE), traz elementos para entender essa realidade.

Um dos aspectos em que houve transformações é o formato das famílias. O número de domicílios com mulheres como pessoa de referência passou de 23% em 1995 para 40% em 2015. Em 34% delas, há também a presença masculina. Segundo as autoras, isso pode indicar uma mudança de comportamento da sociedade em geral, ao aceitar arranjos menos tradicionais, mas também na autopercepção das mulheres, que em geral são as principais respondentes da pesquisa. Por outro lado, a família com casal e filhos deixou de ser preponderante no Brasil. Esse modelo respondia por 58% das famílias em 1995, mas, em 2015, passou a ser de 42%.

Na área da educação, é possível observar duas fortes características: um aumento geral da escolaridade e a consolidação da vantagem em relação aos homens. Porém, a desigualdade racial continua sendo um fator central. Nesses 20 anos, a população branca com 12 anos ou mais de estudo dobrou, de 12,5% para 25,9%. A população negra com a mesma escolaridade quadruplicou, de 3,3% para 12%. Esse aumento, destaca a publicação, “não esconde que a população negra chega somente agora ao patamar de vinte anos atrás da população branca”.

A vantagem educacional das mulheres não se traduz na inserção no mercado de trabalho. A participação feminina estagnou ao longo desse período. A taxa de mulheres trabalhando ou procurando trabalho ficou em torno dos 54%-55% e nunca chegou a 60%. Não apenas os dados apontam um “teto” para a presença das mulheres no mercado de trabalho, como num nível abaixo muito abaixo ao masculino (de 78% em 2015) ao de muitos outros países.

O tempo dedicado pelas mulheres ao trabalho doméstico caiu seis horas em duas décadas, enquanto para os homens, se manteve. Essa queda pode estar relacionada ao acesso a eletrodomésticos – o número de domicílios com máquina de lavar roupa passou de 26,5% para 61,1%. Além disso, aumentou a proporção de homens que realizam afazeres domésticos, de 46% para 53% – comparado a 90% das mulheres. Ainda assim, quando se compara jornada semanal total de trabalho, incluindo o remunerado e o doméstico, percebe-se que as mulheres ainda trabalham mais horas (53,6 horas) que os homens (46,1).

O emprego doméstico vem caindo e se transformando, mas segue uma ocupação importante. Quase uma em cada cinco (18%) mulheres negras eram trabalhadoras domésticas em 2015 – em comparação com 10% das brancas. A categoria envelheceu: em 1995, metade das trabalhadoras tinham até 29 anos; e em 2015, eram apenas 16% de jovens. Outras mudanças são o aumento de trabalhadoras com carteira assinada, por um lado, e o aumento das qie trabalham em mais de um domicílio, por outro. Ou seja, houve uma maior formalização (de 17,8% a 30,4%), junto com a ampliação da condição de diarista, que permite renda maior, mas com menos proteção social.

A renda média dos trabalhadores caiu entre 1995 e 2005 e aumentou na década seguinte, mas já indicando uma redução nos últimos anos. O rendimento das mulheres negras aumentou 80%, diante de 11% dos homens brancos. Porém, ao longo desses 20 anos, a hierarquia de raça e gênero se manteve: homens brancos com maior rendimento médio, seguidos por mulheres brancas, homens negros e mulheres negras.

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