A festa “Se nada der certo” e uma reflexão sobre a valorização das profissões

Trabalho

“Em nossa sociedade parece existir uma regra geral onde quanto mais o seu trabalho beneficia outras pessoas, menos remuneração você receberá”

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Por Bárbara Lopes

Faxineiras, cozinheiros, garis, garçons, vendedores… Essas foram algumas das profissões caricaturadas na festa “Se nada der certo”, por alunos do 3º ano do ensino médio da escola particular Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), no Rio Grande do Sul. A festa, que causou uma série de debates nas redes sociais, é um bom gancho para pensar que tipos de trabalho são valorizados na nossa sociedade.

Afinal, poucos trabalhos podem ser considerados tão importantes, tão necessários para a sociedade, como o de um gari. No entanto, é uma profissão desvalorizada socialmente, com baixa remuneração e com uma grande invisibilidade social. O psicólogo social Fernando Braga da Costa fez, para sua tese de mestrado, um experimento relacionado a isso: trabalhou oito anos varrendo as ruas da Cidade Universitária da USP, onde estudava. Em uma entrevista de 2008, ele conta que não era reconhecido pelos colegas e professores quando estava com o uniforme: “Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão”.

Invisibilidade é também uma palavra-chave para um olhar feminista sobre o trabalho. De acordo com essa linha, o gênero divide e hierarquiza o trabalho humano – ou seja, não apenas separa o que é trabalho masculino e feminino, mas também estabelece que o primeiro é mais valorizado que o segundo. Aos homens, é reservado o trabalho “produtivo”: aquele que resulta em produtos e serviços com valor de mercado. Já as mulheres são responsabilizadas pelo trabalho reprodutivo, que permite que os trabalhadores continuem produzindo. Isso inclui fazer a comida, lavar a roupa, arrumar a casa, cuidar das crianças e dos idosos…

Como o gênero é também atravessado por questões de classe e raça, nas famílias das classes mais altas muito desse trabalho não é feito dentro da própria família e é transferido para outras pessoas – em geral, mulheres – pobres e negras. Esses trabalhos – faxineiras, cozinheiras – representam outro conjunto das fantasias escolhidas para representar “não dar certo”.

Um artigo do antropólogo americano David Graeber, chamado “Assim multiplicam-se trabalhos estúpidos”, é uma boa contribuição para essa reflexão. Segundo ele, “em nossa sociedade parece existir uma regra geral onde quanto mais o seu trabalho beneficia outras pessoas, menos remuneração você receberá”. No texto, ele defende que, enquanto a tecnologia eliminou muito do trabalho mecânico, muitas pessoas estão em trabalhos dos quais não gostam e que consideram inúteis. Ele se refere principalmente a empregos burocráticos.

“Os trabalhadores ‘reais’ e produtivos são implacavelmente explorados. O restante está dividido entre uma porção aterrorizada (universalmente demonizada) de desempregados e uma outra que é basicamente paga para não fazer nada, em postos de trabalho criados para a identificação com as perspectivas e sensibilidades da classe dominante (gerentes, administradores, etc) — e particularmente com seus avatares financeiros — mas, ao mesmo tempo, promovem um ressentimento feroz contra aqueles que realizam um trabalho que tem inegavelmente um valor social”.

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