Mundo do trabalho: entre a precarização e a resistência

Trabalho

Seminário realizado pelo Sesc com apoio da Ação Educativa tratou dos paradoxos do mundo do trabalho para a juventude

Foto: Agência Jovem de Notícias Foto: Agência Jovem de Notícias

Texto: Alexandre Suenaga

O trabalho está diretamente relacionado à maneira como criamos a vida em sociedade e, por isso, não está imune às contradições e conflitos presentes nela. Ele é um microcosmos paradoxal que tanto pode significar a busca por identidade, emancipação e autorrealização, quanto exploração, precariedade e desigualdade. Essa contradição marcou o Seminário Jovens e Trabalho: Dilemas, Invenções e Caminhos, realizado pelo Sesc São Paulo, em diálogo com a Ação Educativa, nos dias 13 e 14 de setembro.

As reformas trabalhista (Lei 13.467), do Ensino Médio (Lei n° 13.415/2017) e da previdência (PEC 287/2016) compõem um cenário de precarização nas área de educação e trabalho. Mas os direitos que vem sendo retirados não chegaram a ser efetivados para uma parcela da população. “Existe um hiato entre o país legal e o país real”, afirma Regina Novaes, pesquisadora do CNPQ nos temas da juventude, identidades e expressões culturais especialmente diante do momento político que vivemos, de desmonte dos direitos conquistados pela população na Constituição Federal de 1988.  Para Lúcia de Oliveira, docente da Escola de Ciências do Trabalho do DIEESE, esse desmonte acontece facilmente, porque nunca chegamos a pleitear no Brasil a discussão a respeito da qualidade do trabalho, as taxas de exploração sempre foram altas, mesmo nos governos mais progressistas. “Ainda assim, é importante que lutemos pelos espaços institucionais, porque eles nos dão uma base mínima de negociação e de luta pelos direitos”, complementou Regina.

Além das reformas, o mundo do trabalho se transforma com a crise do emprego, o temor que mesmo que a economia se recupere, os níveis de emprego não voltem ao patamar anterior. “Se não tem mercado para nós jovens, a gente inventa um!”, afirma Thábata Letícia Moraes Da Silva, membro da Cooperativa de Artistas. As novas gerações buscam se valer de um atributo que sempre foi elemento de sobrevivência das populações mais pobres e periféricas: a criatividade. Felipe Damasco, artista da Ocupa Colaborativa em Jundiaí, ressalta: “ninguém nos ensinou a construir coletivamente, nós aprendemos no processo”. E ainda que estes/estas jovens busquem criar micro espaços de resistência, mostrando-se preocupados em não formar “bolhas”, é preciso participar também das disputas macro e dos espaços institucionalizados.

É impossível tratar as transformações nas relações e nos sentidos do trabalho de maneira dicotômica: é só precarização ou é só resistência. Estes processos acontecem ao mesmo tempo e muitas vezes se confundem.

“Dotar o trabalho de sentido e transformar o mundo” pode ser uma potência revolucionária, mas também é facilmente um sentido cooptado pelo mercado. Na ideologia neoliberal, o/a jovem entende que o sucesso ou fracasso de suas trajetórias particulares depende unicamente de seus esforços e assim são responsabilizados pelos fracassos sociais, políticos e econômicos de toda uma sociedade. A intensificação das rotinas de trabalho e a pressão subjetiva se escondem atrás de máscaras vocabulares que exigem do/da jovem proatividade, flexibilidade, inovação, liderança etc. Todas estas e outras exigências, somadas ao cenário de desemprego e precarização, causa o que Regina Novaes chama de “medo de sobrar”.

Isto é também o que Daniele Linhart, socióloga francesa, nomeou de “precarização subjetiva”: é preciso sobreviver, ter renda, ajudar a família, se profissionalizar, atender as exigências do mercado e ainda mudar o mundo, sem amparo de políticas públicas e com exposição aos contextos de violências contra a mulher, contra os negros e as negras, contra a população LGBT. Neste sentido, a única forma de resistir e existir é por meio da coletividade, como afirmam as representantes da Cooperativa de Artistas: “A única certeza que temos é que estamos juntas”.

Um comentário para “Mundo do trabalho: entre a precarização e a resistência”

  1. Linking Sites

    Meu filho conseguiu passar em uma faculdade pública depois de 2 anos tentando, eu fico pensando nisso, eu vejo nele um potencial incrível, mas o mercado está tão retraído que me pergunto, onde ele irá trabalhar? e não somente ele mas todos estes jovens que estão na mesma situação, antigamente parecia que o emprego era mais fácil, nossos governantes deveriam se preocupar mais com esta questão, para não termos uma evasão de jovens indo para outros países buscar emprego.
    Obrigado por compartilhar!
    Alexandre
    Marketing Digital

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