Alunas ocupam universidades no Chile para denunciar violência de gênero

Mobilização

"A violência machista e a reprodução das desigualdades de gênero estão imbricadas com o caráter antidemocrático e mercantil das instituições educativas"

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Com ocupações e greves, estudantes universitárias chilenas estão em uma grande onda de manifestações contra a violência machista e por protocolos contra casos de assédio sexual que, segundo as jovens, são acobertados pelas instituições. No momento, são 15 universidades ocupadas e outras tantas em greve. O estopim foi na Faculdade de Direito da Universidade do Chile, ocupada por alunas no dia 27 de abril para protestar contra a demora de uma resposta a uma denúncia de assédio sexual e trabalhista feita há oito meses contra um professor. Em apoio à mobilização, professoras, intelectuais e ativistas políticas fizeram um manifesto que traduzimos abaixo:

Estamos diante de um movimento de transcendência histórica. Estão se levantando, em nosso país, em diversas universidades, assembleias, greves e ocupações feministas, configurando formas de ação coletiva que há poucos anos não eram sequer imagináveis e que hoje estouram no cenário público para desafiar as fundações patriarcais e androcêntricas das instituições universitárias.

Este novo ciclo de mobilizações, que se inicia por denúncias de assédio sexual e pela insuficiência dos protocolos e normativas existentes, abre uma possibilidade inédita de colocar em questão o sistema de educação superior em seu conjunto, pois tanto a violência machista quanto a reprodução das desigualdades de gênero denunciadas estão estreitamente imbricadas com o caráter antidemocrático e mercantil das instituições educativas.

Sabemos que a violência de gênero é grande e complexa e que atravessa todas as esferas de nossa vida. Por isso, transformar esta dimensão nas universidades implica transformar estruturalmente a educação, minando as bases do sexismo que reproduz, nas instituições educativas, a divisão sexual do trabalho, reforçando a associação de razão, poder e sucesso no mercado com o masculino e de emotividade, subordinação natural e precarização com o feminino. Neste sentido, não é nada casual que usemos a expressão “casa de estudos” para nomear as universidades, se vemos como estas replica, os papéis de gênero, constituindo assim uma extensão da casa heteropatriarcal na esfera da educação formal.

A luta contra o patriarcado e contra a reprodução dos papéis de gênero é também uma luta contra a educação de mercado, pois as carreiras feminizadas, associadas aos trabalhos de cuidado, crianças e empatia, são precisamente as mais precarizadas, enquanto que as carreiras tipicamente masculinas são as mais valorizadas socialmente, as mais exitosas no mercado e as que contam com maiores recursos. Isso segue reforçando a reprodução dos papéis de gênero e perpetua a violência contra os corpos feminizados. O feminismo, justamente, convida a desafiar essa reprodução e entender que não podemos lutar contra o patriarcado na educação sem lutar contra o mercado que reforça as assimetrias de gênero e que orienta as instituições educativas.

Pensar a educação feminista significa pensar a democracia, a liberdade e a igualdade. Ideais que não são sinônimo de empoderamento individual e meritocracia sustentada em privilégios socioculturais e que tampouco podem ser tratados mediante a incorporação cosmética da “perspectiva de gênero” em cursos, programas de aperfeiçoamento ou formação continuada, capacitações ou outros mecanismos característicos da administração universitária neoliberal. Una educação feminista significa transformação desde a raiz, abarcando a ordem jurídica (mudança de estatutos a partir de uma ordenação feminista), igualdade substantiva (procedimentos de paridade, igualdade de salários, etc.), perspectiva teórica feminista para o questionamento geral do conceito de educação e de universidade, das disciplinas até as hierarquias. A educação feminista significa também retomar as bandeiras históricas da luta pela educação pública e insistir na educação como um direito social e na necessidade de financiamento direto às universidades públicas, para poder materializar um projeto educativo transformador e garantir condições de dignidade e igualdade trabalhista para acadêmicas/os e funcionárias/os, porque o feminismo contesta também a precarização do trabalho.

O feminismo coloca em questão as hierarquias, os privilégios e as desigualdades, já que as assimetrias de poder e o caráter estratificado nos espaços sociais geram condições propícias para o abuso e para sua naturalização. Nesse sentido, a democratização das instituições educativas e o trabalho coletivo são condições de possibilidade para levar adiante a transformação de nossas universidades a partir de uma perspectiva feminista.

As mobilizações estudantis que explodiram são uma rebelião contra a injustiça que os mandatos do gênero impõem no neoliberalismo. Portanto, o resgate da educação pública da captura do mercado sexista não passa por ter uma universidade mais neoliberal com “perspectiva de gênero”, e sim por derrubar as bases da educação mercantil-sexista para construir a partir do feminismo uma nova educação pública.

Saudamos e apoiamos com entusiasmo as estudantes que levantaram este movimento e como deputada feminista, professoras universitárias, escritoras e intelectuais fazemos um chamado a assumir um papel ativo nesta mobilização, organizando-nos, criando espaços de discussão e nos articulando em uma aliança feminista ampla, que crie as bases de um novo pacto social por uma nova educação pública, democrática e feminista.

Assinam:

  • Camila Rojas Valderrama. Diputada Izquierda Autónoma. Frente Amplio.
  • Beatriz Sánchez. Instituto de Comunicaciones e Imagen. Universidad de Chile.
  • Faride Zerán Chelech. Universidad de Chile.
  • Diamela Eltit. Escritora.
  • Nelly Richard. Crítica Cultural y Ensayista.
  • Alejandra Castillo. Filósofa feminista. Departamento de Filosofía. Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación.
  • Daniela López Leiva. Encargada Feminista Diputación Camila Rojas Valderrama.
  • Pierina Ferretti. Socióloga. Centro de Estudios Culturales Latinoamericanos Universidad de Chile – Fundación Nodo XXI.
  • Camila Miranda. Directora Fundación Nodo XXI.
  • Carolina Olmedo Carrasco. Universidad Alberto Hurtado. Directora Fundación Nodo XXI.
  • Yesenia Alegre Valencia. Socióloga. Universidad Viña del Mar. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Leticia Arancibia Martinez. Pontificia Universidad Católica de Valparaíso. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Gloria Caceres Julio. Pontificia Universidad Católica de Valparaíso. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • María Angélica Cruz. Universidad de Valparaíso. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Mónica Iglesias. Instituto de Sociología. Universidad de Valparaíso. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Patricia González San Martín. Facultad de Humanidades. Universidad de Playa Ancha. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Tania de Armas Pedraza. Directora Departamento de Sociología Universidad Playa Ancha. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Sonia Reyes Herrera. Instituto de Sociología Universidad de Valparaíso. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Lorena Zuchel Lovera. Departamento de Estudios Humanísticos UTFSM. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Jeanne Hersant. Departamento de Sociología Universidad de Playa Ancha. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Alejandra Ramm Santelices. Universidad de Valparaíso. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Claudia Montero. Instituto de Historia y Ciencias Sociales Universidad de Valparaíso. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Maribel Ramos Hernández. Departamento de Sociología Universidad de Playa Ancha. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Marjorie Mardones Leiva. Facultad de Ciencias Sociales. Universidad de Playa Ancha. Red de Académicas Feministas de Valparaíso.
  • Pamela Soto Vergara. Psicóloga. Universidad Andrés Bello.
  • Luna Follegati Montenegro. Historiadora. Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación.
  • Rosario Olivares. Departamento de Filosofía. Universidad Alberto Hurtado.
  • Carolina Avalos. Facultad de Filosofía y Humanidades. Universidad Austral de Chile.
  • Lelya Troncoso. Trabajo Social. Universidad de Chile.
  • Mia Dragnic. Socióloga. Maestra en Estudios de Género. Universidad de Chile.
  • Caterine Galaz. Trabajo Social. Universidad de Chile.
  • Hillary Hiner. Escuela de Historia. Universidad Diego Portales.
  • Laura Albornoz Pollmann. Departamento de Derecho Privado. Universidad de Chile.
  • Daniela Marzi. Universidad de Valparaíso.
  • Javiera Arce. Universidad de Valparaíso.
  • Isabel Piper. Psicología. Universidad de Chile.
  • Paula Quintana. Instituto de Sociología. Universidad de Valparaíso.
  • Antonella Marín. Instituto Arcos Viña del Mar.
  • Paula López. Instituto Arcos Viña del Mar.
  • Eloid Chabaud. Instituto Arcos Viña del Mar.
  • Ana Luisa Muñoz. Profesora de Historia e Investigadora.
  • Claudia Rojas Necuhual. Facultad de Economía y Negocios. Universidad de Chile.
  • Ana Traverso. Facultad de Filosofía y Humanidades. Universidad Austral de Chile.
  • Karen Alfaro. Facultad de Filosofía y Humanidades. Universidad Austral de Chile.
  • Mónica Peña. Facultad de Psicología. Universidad Diego Portales.
  • Ariadna Biotti Silva. Archivo Central Andrés Bello. Universidad de Chile.
  • Javiera Carmona Jiménez. Universidad de Playa Ancha.
  • María José Yaksic. Magíster en Estudios Latinoamericanos. Universidad de Chile.
  • Ximena Azúa. Facultad de Ciencias Sociales. Universidad de Chile.
  • Daniela Jara. Instituto de Sociología. Universidad de Valparaíso.
  • Carolina Benavente Morales. Centro de Investigaciones Artísticas. Universidad de Valparaíso.
  • Javiera Robles Recaberren. Doctoranda en Historia. UNLP/IIGG-CONICET
  • Karin Berlien Araos. Departamento de Ingeniería Comercial. Universidad de Valparaíso.
  • Pamela Jaime Elías. Profesora de Historia.
  • María Isabel Puerto Perez. Abogada. Docente Universidad de Valparaíso.
  • Verónica Francés. Arquitecta. Centro de Investigaciones artísticas. Universidad de Valparaíso.
  • Carolina Andrade Amaral. Encargada Oficina Comunal Diversidades Sexuales y Docente en Violencia de Género. Universidad Andrés Bello.
  • Sara Avalos Urtubia. Profesora de Historia y Geografía. ONG Contra de Reñaca Alto.
  • Sandra Rojas Cáceres. Trabajadora Social. Universidad de Viña del Mar y Universidad de las Américas.
  • Ana Gálvez Comandini. Historiadora. Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación.
  • Alejandra Zuñiga Fajuri. Escuela de Derecho. Universidad de Valparaíso.
  • Marcela Díaz Rebolledo. Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales FLACSO Chile.
  • Sofía San Martín Moreno. Socióloga. Universidad de Playa Ancha.
  • María Soledad Vargas Carrillo. Pontificia Universidad Católica de Valparaíso. Directora Magister en Comunicaciones.
  • Lina Marín Moreno. Universidad de Valparaíso.
  • Nico Mazzucchelli. Trabajadora Social. Académica Universidad de Viña del Mar y Universidad de Valparaíso.
  • Nicole Cisternas Collao. Socióloga.
  • Carolina Pinto. Socióloga. Académica Universidad de Viña del Mar.
  • Claudia Espinoza. Universidad de Valparaíso.
  • Tamara Ortega Uribe. Socióloga. Universidad de Playa Ancha.
  • Camila Arriagada B., Unidad de Control de Proyectos Universidad Técnica Federico Santa María
  • Claudia López, Departamento de Informática y Observatorio de Género en Ciencia e Ingeniería UTFSM.
  • Paulina Santander Astorga, Departamento de Industrias y Observatorio de Género en Ciencia e Ingeniera UTFSM.
  • Marianna Oyanedel, Departamento de Estudios Humanísticos UTFSM.
  • Aldonza Jaques, Departamento de Ingeniería Química y Ambiental UTFSM
  • Marcela Prado Traverso Facultad de Humanidades, Universidad de Playa Ancha
  • Francesca Iunissi, Facultad de Ingeniería, Universidad de Playa Ancha
  • Karen Alfaro, Facultad de Filosofía y Humanides, Universidad Austral de Chile
  • Ana Traverso, Facultad de Filosofía y Humanidades, Universidad Austral de Chile
  • Paola Bolados, Instituto de Historia y Ciencias Sociales, Universidad de Valparaíso.
  • Karina Marambio Guzmán, Escuela de Psicología. Universidad de Valparaíso.
  • Esperanza Díaz Cabrera, Profesora de Historia, Magíster en Historia.
  • Verónica Figueroa Huenchu. Instituto de Asuntos Públicos. Universidad de Chile.
  • Paulina Vergara Saavedra. Instituto de Asuntos Públicos. Universidad de Chile.

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