Coletivo Negro Vozes é espaço de disputa de narrativas dentro da universidade

Mobilização

Formado por estudantes negros da UFABC, coletivo realiza saraus para discutir questões raciais dentro da universidade

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Por Luiza Alves e Vanessa Cândida

A baixa presença de estudantes e professores negras nas universidades públicas e privadas no Brasil é pauta do movimento negro (no mínimo) desde os anos 1970. Dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) mostram que apenas 16% dos professores universitários são negros, isso, apesar de sua presença ter crescido cerca de 47,7% nos últimos anos.

Em 1977 na Quinzena do Negro na USP, o sociólogo e militante negro Eduardo Oliveira e Oliveira já anunciava a importância da pauta: “Nós temos direito a essa instituição”, referindo-se à Universidade de São Paulo (USP). A fala de Eduardo amplia a discussão para além da questão do acesso do negro à universidade, faz referência também a seu reconhecimento como sujeito que fala, que produz e que demanda. Nesse sentido, a academia é um espaço importante (mas não o único) de disputa para a produção e reconhecimento de saberes que até então não eram reconhecidos e que ainda são tidos como subalternos em relação a um conhecimento europeu, branco, masculino e que se afirma universal.

A reivindicação de acesso dos negros à universidade também se dá em espaços como os coletivos negros universitários que, pautados por suas realidades locais, dão visibilidade à necessidade de criação de condições de permanência estudantil, diante das barreiras que as(os) estudantes negras, negros e indígenas tendem a enfrentar após o ingresso na universidade, como o racismo estrutural, e a LGBTfobia. Ao mesmo tempo, pontuam a necessidade da valorização de epistemologias (produção de saberes) negras, indígenas e feministas, como um ponto importante na construção de um conhecimento mais plural e menos masculino e branco.

O Negros Vozes da UFABC (Universidade Federal do ABC) é um desses coletivos. Formado em 2014 por estudantes negras/os da universidade, o coletivo realiza diversas ações para pensar a presença (e ausência) de estudantes negras na universidade, como a Semana da Consciência Negra e o Sarau Empretecer.

Em conversa com o projeto Tô no Rumo, o coletivo contou sobre suas ações dentro da universidade.

Vocês participam de instâncias institucionais dentro da UFABC? A exemplo da Comissão de Direitos Humanos, Conselhos de Graduação ou NEABs?
Negro Vozes – A gente procura ter participantes do coletivo nessas instâncias, tem uma pessoa do coletivo na Comissão de Direitos Humanos, estamos no DCE (Diretório Central dos Estudantes), o NEAB (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiro) está sempre em diálogo com o coletivo. Nossa relação é de aproximação com essas instâncias, estamos sempre ligados no que está acontecendo, ainda mais agora que temos um pró-reitor negro que está próximo a nossas questões e que traz as discussões institucionais diretamente para o coletivo.

Sobre a valorização de epistemologias negras e indígenas nos currículos dos cursos da UFABC, que ações foram realizadas até agora? Vocês participaram ativamente destes processos?
Temos a matéria de Estudos étnico-raciais que é recente e fruto de pressões do coletivo. A matéria de Afro-matemática da licenciatura foi impulsionada pelo coletivo, temos o edital “4×4” que prevê cotas para professores negros e que também é uma iniciativa de descolonização do currículo. Os professores negros trazem uma perspectiva negra e representatividade para dentro da sala de aula. E as discussões que a gente tem tentado fazer através dos setores da universidade para que levem as discussões mais a fundo, não só na sala de aula, mas para outros professores, administração da universidade e outros espaços.

Sobre o Sarau Empretecer, principal ação do coletivo: quando surgiu, a partir de que demandas, e qual sua importância para as pautas de permanência estudantil e negritude dentro da universidade, considerando que a ação faz parte de um projeto de extensão universitária?
O Sarau Empretecer nasceu em março de 2017, depois das eleições do DCE. Nessas eleições, o coletivo impulsionou uma chapa com 100% de pessoas negras, sendo 80% dessas de mulheres. A gente viu a necessidade de estar juntos e se identificar como pessoas negras. Que muitas dessas pessoas na universidade não estavam conectadas com essas questões, e não tinham onde recorrer.

O Sarau começou de forma bem simples, com uma caixa de som emprestada, um ou dois convidados, e foi crescendo até virar um projeto de extensão, então a gente tem o apoio da universidade para a realização desse evento todo mês. Trazemos convidados especiais que são artistas negras e negros que tem muito a mostrar e que muitas vezes são apagados na arte, justamente por serem periféricos.

E o sarau Empretecer foi criado nesse intuito de mostrar que o coletivo existe, que existe um grupo de pessoas negras na universidade que está discutindo essas questões e que acolhe pessoas que não fazem ideia do quão político é ser negro. Além de levar cultura negra para a universidade que é um espaço tão hostil, que é ocidentalizado, colonizado, elitista. Mostrar que o sarau não é simplesmente um evento recreativo, ele traz muitas pautas raciais, e tem um cunho político muito forte, que aproxima pessoas de fora da universidade para dentro dela, e isso é muito importante porque a universidade é pública, é o acesso de pessoas periféricas que não acessavam a universidade e que agora acessam.

O intuito desse sarau além de juntar as pessoas e criar essa identificação entre os estudantes negras, é também aproximar as pessoas brancas dessas pautas porque o sarau é aberto para todas(os), e também afetar as aulas, as disciplinas, os outros professores e a instituição no geral.

Para além de um espaço político, quais outras dimensões o coletivo tem dentro da universidade e entre o estudantes negros?
O coletivo alcança a dimensão de identificação, e essa identificação nos ajuda a permanecer estáveis emocionalmente na universidade, porque o racismo institucional existe e nos afeta. Nos afeta de tal maneira que, às vezes, nós pessoas negras não queremos ir para a universidade porque não nos enxergamos nela, nas aulas, nos corredores. Nós somos expelidos por essa hostilidade branca, por isso, o coletivo tem o intuito de reunir e gerar identificação nessas pessoas negras, e inclusive buscar o estudo de nossa ancestralidade, e nos entender como pessoas no mundo. Então, as rodas de conversa, ir ao restaurante universitário juntos, são atitudes importantes no fortalecimento desses estudantes na universidade.

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