Juventude e escola, os grêmios como espaço de participação e decisão estudantil

Mobilização

Grêmio Fernão Livre e Voz da Diversidade são espaços de participação da juventude e luta por respeito à diversidade dentro da escola.

Redes sociais do grêmio Fernão Livre. Redes sociais do grêmio Fernão Livre.

A participação juvenil nos processos de decisão na escola é parte importante no processo de construção de uma educação mais plural e democrática. O grêmio estudantil é um desses espaços, já que é voltado para a organização e discussão das(os) estudantes, e que possui autonomia em relação a outros órgãos representativos na escola. O direito à organização estudantil está previsto desde 1985 na lei Nº 7.398 e no Estatuto da Criança e Adolescente – o ECA, de 1990.

Apesar de existir uma estrutura clássica do grêmio estudantil, com presidenta(e), tesoureira(o) e outras funções, muitos grêmios se organizam de acordo com seu contexto escolar e com as formas que se acham mais representados. O Colégio Técnico de Campinas – Cotuca, por exemplo, utiliza essa estrutura formal com presidente, mas na prática se organiza de modo livre, no qual todas(os) as(os) estudantes têm espaço para discutir e decidir juntas(os). Pensando na importância do grêmio como espaço de representação estudantil, o Tô no Rumo trocou ideia com dois grêmios, o Fernão Livre da cidade de São Paulo e o Voz da Diversidade do Cotuca de Campinas. Se liga!

 

Grêmio Fernão Livre

O grêmio Fernão Livre da E.E. Fernão Dias, localizada no bairro de Pinheiros, na zona oeste da cidade de São Paulo, mostra como a participação ativa das(os) estudantes dentro do colégio potencializa ações conjuntas entre alunas(os) e coordenação escolar. Sua formação se deu após o movimento de ocupação de escolas estaduais ocorridos no final de 2015, resposta a então reorganização das escolas estaduais proposta pelo ex-governador Geraldo Alckmin. As(os) estudantes da E.E. Fernão Dias, participaram intensamente desse processo.

“O grêmio trabalha com a proposta de horizontalidade e liberdade. Nosso grêmio se deu logo após o período das ocupações, depois de diversas tentativas de organizar os estudantes na nossa escola. Após reconhecermos a autonomia dos estudantes criamos um estatuto para ter um respaldo e um embasamento legal para projetar nossas ideias sem sermos barrados e controlados” Giovana Lo Blanco, integrante do Fernão Livre   

As(os) estudantes contam que a construção do estatuto do grêmio ocorreu através de assembléias e destacam que uma das estratégias na sua escrita foi evitar que a direção barrasse os projetos dos estudantes dentro da escola, podendo somente sugerir melhorias e acompanhar as ações. Para as(os) estudantes, a mudança na gestão da escola no final do ano passado, trouxe mudanças positivas.  

“A nossa nova diretora, a Lilian, apoia muito os projetos do grêmio e acredita, tanto quanto a gente, na escola pública. Porque se nós não pensarmos que escola pública é um espaço nosso, que temos o direito de atuar lá dentro, para melhorá-la para os alunos, a gente não tá fazendo nada na escola além de só absorver o conteúdo e ir embora. Então transformar a escola em um espaço social é importante” Giovanna Lo Blanco

Este ano o grêmio realizou diversos projetos dentro da escola. Um dos que mais gerou repercussão foi o Projeto Agita, realizado através do programa Agita Galera, que existe desde 1997 e prevê um  cronograma de atividades esportivas e artísticas na última sexta-feira do mês de agosto nas escolas estaduais. Com a programação pensada pelas(os) e para as(os) estudantes, as ações realizadas no dia contaram com a pintura de um mural de grafites na escola, campeonato de skate e dança. Outras conquistas do grêmio, foi a primeira festa junina aberta do colégio em 15 anos e a construção coletiva de uma praça na frente da escola.

Segundo as(os) integrantes, para além de ações pontuais o grêmio tem o objetivo de incentivar a maior participação do restante das(os) estudantes da escola. Uma preocupação das(os) alunas(os) do ensino médio que atuam no Fernão Livre é fazer com que essa consciência política e participativa chegue nas turmas dos últimos anos do ensino fundamental da escola. As(os) estudantes pontuam que organizadas(os) e cientes de seus direitos, têm o poder de realizar significativas mudanças na realidade de seu colégio:

“Temos que mostrar para eles que o espaço da escola não é só o lugar que você tem que ir obrigado. É fazer eles participarem, eles criarem um amor pela escola. Para quando chegar no ensino médio para que eles façam realmente parte do grêmio, das lutas diárias, de uma manifestação de todo esse tema político da escola que o grêmio propõe. É muito importante mostrar para o fundamental, primeiramente, que o grêmio existe e que ele faz a diferença na escola.” Giovana Lo Blanco

 

Grêmio Voz da Diversidade (Cotuca)

No Cotuca (Colégio Técnico de Campinas) as/os estudantes do grêmio estudantil Voz da Diversidade mostraram que o ambiente escolar é um espaço de pluralidade e que a discussão sobre a diversidade deve ser colocada em pauta. As(os) estudantes contam que desde que o grêmio voltou à ativa nos últimos dois anos, elas(es) têm se organizado em torno de temáticas relacionadas à raça, gênero e sexualidade, isso por conta de casos de discriminação que ocorreram dentro da escola.

Foto: Redes sociais do grêmio Voz da Diversidade.

Foto: Redes sociais do grêmio Voz da Diversidade.

 

Para o grêmio, o fato desses casos não serem pontuais reforça ainda mais a necessidade de pautar essas questões, por isso, buscaram incluir estudantes que representassem essa pluralidade, estudantes negras e negros, e LGBTs. A organização em comissões como a de cultura e a articulação com os coletivos de gênero da escola também foi um fator importante para que os casos de racismo e homofobia não passassem em branco.

Então a gente foi se organizando enquanto minorias para ter um representante enquanto alunos lá dentro [do grêmio] para que a gente pudesse se ajudar (…)” Bruna, 18 anos, integrante da Comissão Cidadã do Cotuca.

As(os) estudantes pontuam que buscar conhecer as pautas que estavam tratando foi fundamental durante o processo de reivindicação pelo respeito às diversidades e, que o diálogo que estabeleceram com a nova gestão da escola e professoras(es) é uma conquista dessas ações. A comunicação com outras(os) estudantes da escola e sua participação em espaços como as assembleias de estudantes, e a discussão e aprovação de cotas para o ingresso na escola, também foram outras conquistas do grêmio, que tem como missão “cutucar” as(os) demais alunas(os) e provocar uma reflexão sobre as desigualdades existentes dentro da instituição.  

“Nós visamos o colégio como um todo, mas sempre incluindo essas minorias que sempre foram preteridas aqui dentro e que apesar de ser um colégio público, é super elitizado. Acho que às vezes, é um colégio que esquece que é público e segue mais ou menos os padrões de particular, esquecem que estão em um âmbito que é mais de inclusão por ser público (…)”. Ana Carolina, 18 anos, integrante do grêmio do Cotuca.

“Já era um colégio elitizado, mas nesse último vestibulinho entrou um número exacerbado de alunos de escola particular. E, ao meu ver, quando você está nesse lugar de privilégio não tem porque correr atrás de coisas que nunca te incomodaram. Então, criar esse costume, essa tradição nos alunos é muito difícil. Mas felizmente isso tem melhorado, graças, e também infelizmente, ao último caso de racismo que teve com um professor. Foi um momento em que conseguimos parar a escola e todos os alunos do diurno e do noturno tiveram um momento para pensar e discutir sobre isso, sobre o que aconteceu e porque aquilo era errado. Nesse momento eles entenderam o que é o grêmio, o que os coletivos estão fazendo ali. Já que, de certa forma, foi a gente que correu atrás para que aquilo não passasse batido.” Ana Carolina, 18.

Criar espaços de troca de afetos também foi uma das estratégias usada pelas(os) jovens para que o debate sobre diversidade tomasse corpo dentro do colégio. Além de ações de enfrentamento direto e organização das(os) estudantes, o grêmio construiu um sarau no qual há expressão de diversas manifestações artísticas, desde a poesia até a dança. Bruna destaca  que depois que o grêmio se tornou mais atuante dentro do colégio, as contribuições do sarau se tornaram mais politizadas. Ela conta que hoje as(os) estudantes utilizam suas apresentações para manifestar críticas sociais, transformando suas vivências em poesias e se entendendo como sujeitas(os) políticas(os).

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