Conta aí #3 – Saúde mental das/os educadoras/es em tempos de pandemia

Mobilização

"(...) a saúde mental caminha junto com as condições de vida das pessoas, então, pleno emprego é saúde mental, salário digno é saúde mental, direito à greve é saúde mental (...)" - Marcos Amaral

O Tô no Rumo bateu um papo com o psicólogo Marcos Amaral sobre saúde mental das/os educadoras/es durante a pandemia. Marcos faz parte da Amma Psique, – organização não governamental que trata da identificação e desconstrução do racismo e de seus efeitos psicossociais. Dá uma conferida!

Wellington: O que nos atrai como ponto principal é entender como você, como profissional de saúde, vê a condição de saúde mental na pandemia, especificamente de quem trabalha com educação, estudantes, professoras e professores?

Marcos: Acho que dá para gente começar um pouco pensando saúde mental para além da própria subjetividade, o que impacta no sofrimento psíquico das pessoas em geral. E eu gosto muito de uma discussão que a Organização Mundial da Saúde (OMS) faz, que a saúde mental caminha junto com as condições de vida das pessoas, então, pleno emprego é saúde mental, salário digno é saúde mental, direito à greve é saúde mental, direito à mobilidade na cidade é saúde mental, e a gente está passando por um momento em que os direitos do povo brasileiro estão sendo aviltados*. Pensando os professores enquanto classe trabalhadora organizada, com sindicatos muito fortes, eles sofrem estes impactos diretamente. E a saúde mental do professor vem sendo atacada há alguns anos especialmente no estado de São Paulo, e aí eu lembro, que há três anos, os professores da rede municipal entraram em greve por causa da reforma da previdência dos servidores municipais. E que teve um ato na câmara que os professores apanharam muito, as imagens são assustadoras, depois eles tiveram um esforço de resistência, convocaram a sociedade civil, mas é muito difícil sustentar a saúde mental com uma conjuntura política que vai anulando a possibilidade de trabalho do professor. E a possibilidade de trabalho do professor não é só giz e lousa, é também uma sala de aula com mecanismos que permitam trabalhar, é salário digno. E a gente vê uma série de direitos do trabalhador, do profissional da educação sendo aviltados, a redução de salário, com ampliação de carga de trabalho, e é dentro dessa conjuntura da educação que a gente entra em pandemia e novos desafios se colocam aos educadores. 

Quando a gente faz a discussão sobre volta às aulas, e acho importante que ela seja feita de um jeito muito honesto, e isso tem pegado muito, em geral, a gente fala sobre os alunos, – como é uma criança que está no período de aprender a ler e escrever, o período de alfabetização, não estar na escola? Com pais que não são pedagogos, letristas, professores? O que é também o aluno do final do ensino médio, prestes a prestar vestibular, ficar um ano sem acesso à educação? Sem tecnologia para aula à distância?- A gente está muito preocupado com o aluno, e com razão, mas acho importante pensar, – e os jornais têm feito muito pouco isso, têm negligenciado -, a preocupação com o professor. Porque de um lado nós temos os alunos e de outro nós temos professores que são tão importantes quanto os alunos, porque os professores na sala de aula são linha de frente. E eles não são tratados como linha de frente pela política pública de saúde. Durante o auge da pandemia em 2020, muitos dos professores trabalharam como assistentes sociais por exemplo, quando vão para a escola entregar cesta básica para o aluno, quando vão para a escola entregar merenda para os alunos, isso é muito importante, é fundamental. Mas, onde está a articulação da assistência social, da saúde e da educação para auxiliar o trabalhador professor? Que é fundamental. Então o professor não ficou com duas, três cargas de trabalho, ele ficou com quatro, cinco, seis cargas de trabalho, e agora está sofrendo com a ansiedade de voltar para sala de aula cotidianamente.

Wellington: Quando você fala isso, me ocorre que a gente está traçando um panorama de saúde mental que vai além da subjetividade, e que fala dessa relação desse indivíduo com a sociedade e com estas estruturas que estão postas. E dentro deste contexto, essas estruturas também se alteraram, o que tornou o processo ainda mais desigual em alguns momentos. (….) Neste contexto de acúmulo de papéis sociais, para além do educador ser o assistente social, o acolhedor, mas também com essa amplitude da jornada de trabalho, mais esse acúmulo de novas tarefas, micro tarefas, que são tecnológicas, a demanda de esses educadores aprenderem novas metodologias, e interagir com novos softwares. Como você vê essa confluência de papéis, jornadas, meios e ferramentas de trabalho?

Marcos: Quando eu retomo a greve dos servidores municipais de 2018, acho que é para frisar que a pandemia ampliou o processo de sucateamento dos professores, mas o governo do estado, e o governador que é o João Dória, trabalhou e vem trabalhando cotidianamente para o sucateamento da profissão dos educadores nas escolas básicas desde 2018, que se aprofundou com a pandemia, mas não começa com a pandemia. O sucateamento do trabalho produz sofrimento psíquico, produz adoecimento mental, e a política pública não oferece recursos para cuidar da saúde mental desses professores. E quando eu digo recursos para cuidar da saúde mental, não estou falando de um psicólogo que atenda esse professor, isso é muito importante, mas para o professor ter saúde mental, se é que a gente pode falar assim, com muitas aspas, ele precisa ter salário digno, recursos tecnológicos dignos, de uma sala de aula que dê conta de seu trabalho, ele precisa de acesso à biblioteca, ele precisa de acesso à formação continuada, isso estando bem, contribui para a saúde mental do professor, não só a presença de um psicólogo, não é só disso que se trata. E não dá pra falar do trabalho na educação no Brasil, sem pensar na desigualdade social, porque é claro que o professor das escolas particulares também sofreram muito com a tripla jornada, os horários se perderam, (…), e as pessoas trabalhando em casa, com filhos. Mas tem uma diferença muito gritante. As escolas particulares ofereceram todos os recursos aos seus docentes, – as escolas de elite: computadores de última geração, internet, tablets. Quando a gente faz uma discussão, na educação básica [pública] isso é pouco falado, a gente em geral fica discutindo a falta de recurso do aluno, que de fato não tem, mas a gente também não discute, a necessidade de o professor ter o recurso tecnológico adequado para preparar suas aulas neste momento. Então não dá para pensar o profissional da educação sem pensar na desigualdade social, que coloca professores de escolas privadas e públicas em lugares desiguais no que tange ao processo de trabalho.    

Wellington: Podemos considerar então que quando a gente acaba discutindo mais a questão do acesso do aluno à tecnologia e recursos para assistir a aula, e menos sobre a possibilidade desses educadores terem acesso a essas ferramentas, nós também não estamos falando sobre a invisibilização do educador como parte desse processo de sucateamento? E enquanto algo que leva esse educador a não ser visto como linha de frente [durante a pandemia], como alguém que deveria tomar vacina?

Marcos: De fato os professores estão sendo invisibilizados, mas a educação pública está sendo invisibilizada, porque temos recebido denúncias que o corpo de trabalho da escola reduziu, então você tinha três merendeiras, agora tem uma, tinha quatro faxineiras agora tem duas, o que isso quer dizer numa situação na qual a gente precisa de higiene básica para reduzir os danos de contágio de covid-19 quando as escolas estão abrindo, é uma política, um racismo de Estado que tem operado na educação, porque a gente fala de retorno às aulas sem pensar que a escola precisa ter água, sabonete, álcool em gel, e que isso protege o aluno, o professor. Então a gente está vivendo um processo não só de invisibilização, mas de sucateamento da educação pública brasileira. E os professores são os grandes impactados que estão na linha de frente desse processo de trabalho. Eles sofrem cotidianamente e enfrentam as contradições da miséria de um país que tem optado por não educar o seu povo.

Wellington: Nessa observação, a gente está dizendo que o processo de adoecimento, sofrimento psíquico do educador, é muito anterior a pandemia, que só amplia, visibiliza esse extrato importante. Ainda sobre pandemia, há muita discussão na educação sobre saúde mental, muitos educadores relataram a preocupação em retomar as aulas, e por outro lado, outro grupo bem expressivo, relata sua vontade de retomar as aulas, mesmo neste ambiente ainda bem instável da pandemia. Como você vê isso do ponto de vista das subjetividades, a proteção, a autoproteção e a vontade de retornar nas condições que se apresentam como pontos que acabam muitas vezes deixando os profissionais da educação em posições distintas de “retorna”, “não retorna”, é positivo ou não retornar, nas condições que se apresentam? 

Marcos: Um pouco antes a gente estava conversando sobre a importância de os educadores terem recurso para trabalharem, porque a falta de recursos na educação, por exemplo, contribui para o sofrimento psíquico, e aí o professor, precisa pensar quatro, cinco, seis vezes como ele vai dar uma aula se ele não tem recursos para aquilo. E hoje concretamente, álcool em gel é um recurso fundamental, sabão, água é um recurso fundamental, e os educadores trabalham em escolas nas quais eles sabem que esses recursos não existem. Eles já sofrem sabendo que vão chegar na escola e esse recurso não vai ter nem para eles, nem para o aluno deles. (…) Mas acho que a gente consegue apontar as contradições para pensar coletivamente a melhor saída, porque novamente, não dá para pensar os educadores sem pensar a educação.

Antes de falar das contradições quero dizer o quanto é importante os sindicatos professorais, o quanto é importante se organizar nesses espaços, o quanto eles tem feito um trabalho primoroso na discussão de enfrentamento a covid-19 na educação, acho que ali está a saída, a possibilidade, na luta coletiva, e acho que hoje a organização professoral que se apresenta como possibilidade de enfrentamento humano, como projeto de vida aos professores, é a via sindical, mas não dá pra pensar a volta desse professor sem pensar a educação.

Quando a gente pensa na desigualdade social e é inegável, não dá para a gente não pensar nos alunos, que os alunos da elite brasileira, os alunos brancos deste país, pensando que aproximadamente 60% dos alunos de escolas públicas são pessoas negras, isso são dados do último censo da educação de 2020, então os alunos brancos, que estudam em escolas particulares, eles tiveram acesso à educação. Eles têm recursos, os professores que dão aula nestas instituições têm recursos, para eles a educação não foi negada. E os alunos das escolas públicas, eles ficaram um ano sem acesso à educação e isso produz impactos a longo prazo. O que é um aluno no período de alfabetização não ser alfabetizado? Do ponto de vista do desenvolvimento infantil é muito importante que as crianças tenham acesso à escola, tenham acesso à educação para o pleno desenvolvimento. Porque a gente “adolece”, a gente, se torna criança coletivamente, adolescência e a infância são experiências coletivas, a constituição coletiva, ela não é só individual, é individual também, mas ela só é possível porque coletiva, às crianças foram negadas o direito à educação, mais de 50% dos adolescentes não foram realizar o Enem o que permitiria uma possível vaga no ensino superior em 2021. Isso também tem a ver com as escolas fechadas. Como é que o Estado brasileiro vai justificar a manutenção do fechamento das escolas quando nós temos mais de 1400 mortes diárias, hoje é 12 de fevereiro de 2021, e a cidade de São Paulo está completamente aberta. Os bares estão abertos, existem baladas, festas abertas, no final do ano as cidades turísticas estiveram todas abertas, não decretou-se lockdown. (…) Não faz sentido os bares estarem abertos e as nossas crianças negras não terem acesso à educação, a gente sabe o que isso resultará a longo prazo. Por outro lado, como é dizer abram as escolas quando esse mesmo estado não oferta os recursos básicos de redução de danos para covid-19 nas escolas? Não tem um plano efetivo de volta às aulas, (…) não existe um plano de retorno, é um plano de retorno para a morte. Por isso os professores têm falado em greve sanitária, porque é uma greve pela vida. Só que é muito difícil e acho que essa é uma decisão dos professores, olhar para as contradições da realidade e tomar uma decisão. E pensar qual vida vale mais, a vida de uma criança, adolescente que não tem acesso à escola também é uma constituição de uma vida para a morte, uma criança que não tem acesso à educação, qual a perspectiva de futuro que essa criança vai construir? Por outro lado, abrir as escolas também é uma política para a morte, e acho que é nessa contradição que a gente precisa coletivamente construir um projeto de vida. Nesse sentido os professores têm chamado uma greve sanitária (…). Dá para colocar na balança? Acho que não.

Wellington: A gente entende essas contradições, como contradições que vem dos contextos, que são necessárias serem debatidas e dialogadas coletivamente como você já expôs. Os espaços de diálogo para esses grupos, estamos falando dos educadores, alunos, pais, seriam espaços de possibilidade para manutenção, discussão ou resolução dessas dificuldades ou desses impactos. Mas também seriam por serem espaços de coletividade, espaços de saúde? No sentido de fomentar ou proporcionar essa auto expressão, de verificar que as pessoas podem possuir voz, e se contrapor ou colocar suas ideias em um espaço em que essa necropolítica existe?

Marcos: Sem dúvida Wellington. Acho que a grande potência da educação, da escola pública, é que ela é um espaço em si mesmo coletivo, os CEUS (Centro educacional integrado) são espaços coletivos, a escola é um espaço coletivo por excelência, e que consegue, – e os professores são impressionantes em como eles conseguem fazer isso -, articular sociedade, especialmente através das famílias, territórios, escolas, é um espaço intergeracional que tem crianças e adolescentes e professores, gestores, que têm famílias de diferentes idades, que constroem projetos coletivos, a educação sempre construiu projetos territoriais. Os planos políticos pedagógicos da escola, são resultado de constituição coletiva. Então se coloca um desafio para a escola, que é construir uma saída de enfrentamento a pandemia, e ela só é possível coletivamente, e a escola tem toda a expertise, toda a inteligência, trabalha com isso historicamente, com a experiência coletiva, isso a escola sabe fazer, os educadores sabem fazer, e é nessa experiência coletiva da escola que está a possibilidade de construção do projeto de vida, de saúde mental, para os educadores, para os alunos, para os territórios. Acho que a pandemia tem anunciado isso, mas quando a pandemia anuncia isso, a escola já faz projetos coletivos há muito tempo, e sem recurso nenhum. 

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