Conta aí 4# – Entrevista Vandei Oliveira

Trabalho

Nesta edição do “Conta aí”, convidamos Vandei Oliveira (@poetaseuze) para conversar um pouco sobre sua experiência como educador, filósofo e poeta, e sobre sua trajetória na área da cultura.

Foto reprodução: Renan Omura / Agência Mural https://www.agenciamural.org.br/poeta-professor-e-escritor-vandei-oliveira-faz-criticas-sociais-com-poesias-em-suzano/

Nesta edição do “Conta aí”, convidamos Vandei Oliveira (@poetaseuze) para conversar um pouco sobre sua experiência como educador, filósofo e poeta, e sobre sua trajetória na área da cultura.

Wellington Cruz (AE): Bem-vindo Vandei!
Nós estamos aqui fazendo esse momento de encontro, para ouvir a história do professor, coordenador, educador e artista Vandeí Oliveira.

Vandei Oliveira: Boa noite,Wellington! O prazer é meu.
Sempre bom contribuir com o Tô no Rumo, a Ação Educativa, um projeto que eu estimo muito, que eu acredito muito também pela temática, pela forma que se insere na educação pública principalmente. Um prazer poder contribuir mais uma vez com o projeto.

Wellington: Nesse momento estamos aqui fazendo essas entrevistas, iniciando por você, que estará disponível no nosso site e em outros canais, possivelmente também no formato de áudio para que os educadores e educadoras e estudantes consigam utilizar dentro das discussões e debates em sala de aula,  debates extra sala de aula para contemplar os processos de formação e inserção profissional que já são debatidos dentro da metodologia Tô no Rumo.

Eu queria começar a falar um pouco sobre a sua apresentação.
Conta um pouco para nós em que momento você está na sua vida profissional e onde você atua. Qual é o seu território?

Vandei: Eu sou formado em filosofia pela PUC de São Paulo, estudei em escola pública na zona leste, Ermelino Matarazzo, e por muito tempo morei na zona leste. Há 15 anos vim embora aqui para Suzano. A minha atuação sempre foi entre a zona leste de São Paulo e depois, Suzano. E aí em 2010, logo após eu finalizar minha faculdade eu entrei no Estado como professor de Filosofia em São Paulo, fiquei um tempo na sala de aula e logo entrei para coordenação pedagógica de uma escola. Fiquei algum tempo, 5 anos nessa escola, depois, fui para coordenação pedagógica de uma escola em São Paulo e agora retornei à diretoria de ensino de Suzano como Coordenador Pedagógico de Agrupamento Escolar. Então no momento eu tô trabalhando pela diretoria de ensino acompanhando a formação de um grupo de coordenadores pedagógicos. E a minha área é a filosofia.  Sou apaixonado por educação e sou formado em pedagogia, tenho uma extensão em psicologia da educação e agora estou fazendo uma especialização em Juventude contemporânea. Então essa é a minha formação acadêmica. E por minha própria conta, eu estudo literatura. Então, não tenho nenhuma formação acadêmica em literatura, mas por minha própria conta eu fui estudar Literatura Marginal, Literatura Periférica e me apaixonei. Então essa é minha formação e esse é o lugar que eu me encontro nesse momento. 

“…eu me descobri educador, me entendi poeta e escolhi ser professor”

W: Você falou sobre algumas formações e alguns trajetos dentro dessas formações, citando que você não tem uma formação acadêmica específica em uma área que você atua bastante, que é a literatura. Você foi para a educação, se apaixonou pela filosofia e foi para a pedagogia. Como se deram essas escolhas e o que você sente que movimentou cada uma delas?

V: Eu costumo dizer que eu me descobri educador, me entendi poeta e escolhi ser professor. Professor é minha profissão. Eu escolhi me profissionalizar quando prestei concurso para entrar na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Então foi uma escolha. Educador, eu me descobri, né, assim, eu me descobri educador, porque quando eu entro para fazer filosofia a minha intenção, eu prestei vestibular para jornalismo porque eu já tinha intenção de escrever eu achava que para escrever eu tinha que ser um jornalista, né, “então vou estudar para isso!”.  Só que eu não passei na primeira chamada para jornalismo, mas passei em uma chamada para filosofia, que era uma área que me interessava. Quando eu entro para a filosofia eu comecei a fazer as disciplinas de educação, de licenciatura. E aí eu já fazia alguns trabalhos ditos voluntários, mas muito na militância mesmo, trabalhos comunitários de educação popular e daí quando eu percebi, eu entendi que eu era um educador, que eu fazia trabalho de educação popular. E aí me descobri um educador. E aí eu fui ainda no começo da faculdade trabalhar em alguns projetos sociais, como educador social, arte educador. E a poesia, eu costumo dizer que eu me entendi poeta. Aí a poesia tem a ver muito com a minha infância, eu sou nascido no Ceará, meu pai foi repentista, violeiro. E aí, aonde eu nasci, lá na região do Cariri ela é muito rica culturalmente. E a minha primeira infância foi lá, então eu cresci com essa riqueza cultural do Nordeste, e isso ficou em mim. E com o tempo fui percebendo, a escola me ajudou muito, meus professores na época, me indicando leitura e depois quando terminei a faculdade me aprofundei um pouco mais na descoberta de outros poetas e eu me entendi como um poeta. E aí eu, ainda na faculdade, comecei a pesquisar com um grupo de amigos, sobre literatura periférica. Era um momento ali 2005, 2006 que tinha uma grande movimentação de Sarau na cidade de São Paulo e aí a gente começou a pesquisar “quem são esses saraus?”, “o que é um sarau?, “Quem são essas pessoas que escrevem?” E naquele momento eu com um grupo de amigos, jovens adultos, a gente escreveu um projeto para o VAI, que é um programa de incentivo a iniciativas culturais da Prefeitura de São Paulo, e fomos contemplados. O projeto chamava Tenda Literária e a gente organizava sarau em praça pública e oficinas literárias, e um dos ideais do projeto era perceber a produção da literatura periférica. Meu objetivo era fazer essa pesquisa, observação, e quando eu vi, eu estava produzindo também. A partir de então eu comecei a escrever também, então, os processos de escolha foram esses. Ah, e como eu decidi ser professor?!  Eu terminei a faculdade, e eu precisava trabalhar na área, então eu fui me profissionalizar, prestar concurso, porque eu já trabalhava como educador social junto a projetos, mas era muito instável, e aí eu passei no concurso do Estado.

W: Quando você fala que escolheu um caminho, que se descobriu educador em um outro momento, onde se dá essa descoberta do educador? Quando você sente que era isso que você queria fazer? E quando você sente que esse momento poeta bateu forte na sua trajetória? Quais aspectos você considerou para dizer, “realmente, eu sou um educador”, e “eu posso me considerar um poeta”?

V: Como educador, eu fui fazendo algumas escolhas pela militância política mesmo, de participar de movimentos sociais e trabalhos comunitários e eu fui me envolvendo e algumas coisas que eu já fazia considerado “voluntário”, era educação popular. Então eu montei ainda lá no grupo de jovens que eu participava na igreja do meu bairro, uma biblioteca Comunitária, e a gente trabalhava voluntariamente lá, então a gente fazia roda de leitura, para as crianças, e eu desenvolvi algumas coisas que eu gostava muito, e ao mesmo tempo eu ainda jovem, eu trabalhava na área de publicidade porque eu comecei a trabalhar como office-boy e depois na área administrativa, e fui trabalhar numa produtora de catálogo de moda. Fiquei 10 anos, e aí quando entro na faculdade, eu já estava muito bem estabelecido. Só que o meu estudo, meu conhecimento me levou a entrar em algumas contradições. Então, as minhas escolhas políticas na época, me levaram a contradições do que eu fazia e queria fazer

“Ser poeta é um modo de ser na vida” (14:34).

 E aí eu decidi “eu preciso exercer aquilo que eu realmente gosto”, que é trabalhar com educação,  ser educador,  trabalhar com educação de jovens. Aí, eu resolvi assumir mais compromissos em relação a isso. Quando em 2010, eu termino a faculdade, eu entro na escola como professor.  Mas antes, por exemplo, eu trabalhei como professor de cursinho pré vestibular por algum tempo. Fim de semana e era voluntário. Então eu fui percebendo que era eu fazia trabalhos voluntários de acordo com aquilo que eu gostava então eu comecei a pensar “Então porque que eu não transformo isso em uma profissão?” O que eu gosto tanto de fazer e daí se eu tomo todo meu tempo no fim de semana fazendo esse trabalho voluntário, existe uma profissão para isso.” E poeta, foi assim, eu comecei a participar desse saraus e daí no começo organizando e organizo ainda até hoje, mas aí eu comecei a participar eu gostava muito de ir lá, depois eu comecei lendo poesias de outros poetas que eu gostava, e eu comecei a escrever, porque eu já escrevia desde a adolescência comecei a rever aquilo que escrevia e perceber também qual que era a linha que eu queria escrever, o que que eu queria falar, do quê eu queria falar, e eu comecei a participar nesses saraus recitando, e cada sarau que eu participava, eu queria fazer uma apresentação diferente. Aí eu escrevi alguma coisa por isso eu digo que por que o poeta é um modo de ser na vida, então, eu entendi que eu tinha uma poética em mim, e eu comecei a exercer a escrever, e em 2013 eu comecei a organizar esses textos porque as pessoas falavam que meus textos eram legais e porque eu não publicava um livro. […] E nos projetos culturais que eu participava eu estudava isso, pesquisava quem são essas pessoas que estão produzindo independentemente. Aí em 2016 eu lancei meu primeiro livro, que foi uma apanhado desses textos que escrevia para os saraus, se chama “Falo”.

W: Quantos textos você conseguiu compilar para estar presente neste livro. 

V: Olha, tem  67 textos. Era uma crise também para mim, porque achava pouco,  mas era o que eu tinha e aí eu resgatei textos de muito mais jovem,  textos que eu escrevi pros Saraus, textos que escrevi depois. E  em 2016 eu consigo organizar e lançar esse livro . Antes de chegar no livro eu já tinha participado de algumas antologias,  que são compilações de poesias de alguns saraus … de dois saraus que eu participava, e de um outro de uma organização de um livro de contos. Então quando eu lanço meu livro já tem algumas  publicações também independentes.

W: E você percebe que você fez uma trajetória, a partir do momento que você fazia atividades de educação popular, atividades no final de semana, trabalho comunitário …você percebia que aquele momento era um momento de experimentação? Aquilo era um processo que favoreceu esse encontro com os outros degraus depois?

Ser escritor também é uma profissionalização,  é um caminho que a gente percorre

V:
Sim , total. E talvez não fosse mesmo consciente. Eu experimentava, porque eu sempre fui muito curioso  e muito aberto a outras experiências, principalmente na questão de arte e cultura. Então essas experimentações me deram base para eu entender qual era minha profissão, porque eu poderia ter seguido na área da publicidade. Eu estava estabelecido, eu tinha um salário, comecei uma carreira lá dentro (da agência). E então poderia ter continuado lá, mas eu não estava satisfeito. Tem uma questão que eu trabalho muito com meus alunos, que essa questão de você fazer o que gosta e você buscar a possibilidade de fazer o que você gosta e para isso a gente precisa experimentar outras coisas, perceber também como essas coisas se aproximam. Então essas experimentações me ajudaram a chegar num ponto e falar assim: “não… acho que o meu caminho é outro” […] “eu vou assumir esse caminho aqui, porque eu já faço tanta coisa nessa área” . E é engraçado que, como eu falei, me profissionalizei como professor e eu continuo ainda fazendo atividades culturais mesmo como professor,  mesmo com a minha profissão de professor eu tenho a minha vida de escritor agora, né? Ser escritor também é uma profissionalização,  é um caminho que a gente percorre.  Então eu conciliei os dois: ser escritor, poeta e  professor.  Isso atravessa minha profissão! Isso sempre atravessou! E daí foi interessante, porque quando eu percebi que isso atravessava e eu comecei a entender que atravessava para me ajudar.  Então isso ajuda minhas aulas e ajuda no meu trabalho nas escolas, por exemplo. Muito!  E faz uma diferença muito grande ter tido essas experimentações e hoje como que eu atuo na área de educação a partir dessas experiências que eu tive.  Então me ajuda muito no  profissional de educação que eu sou hoje.

[…]

W: Vandei, eu vou fazer um pedido especial, fora do nosso script. se você poderia trazer para nós algum texto seu, alguma fala. Essa fala poética sua, que pudesse contribuir para a gente poder concluir. 

V: Vou lá do começo da minha apresentação. Meu nome de batismo é José Vandeí Silva de Oliveira, e quando eu me percebi poeta, adotei o “Zé” como um nome artístico, de poeta. Então hoje eu sou conhecido como o poeta “Seu Zé”. E eu adotei o Zé, porque por muito tempo eu reneguei, porque renegando José eu estava renegando um pouco das minhas raízes nordestinas. Dentro do meu nome, tem o Silva, que é muito emblemático também, porque é nome da maioria dos brasileiros, e nessa descoberta de mim, autodescoberta, eu fui atrás também do que significava ser um Silva, ser um Zé, porque tantos brasileiros se chamam Silva? Quem são essas pessoas? Qual a minha história? E aí eu escrevi uma poesia que se chama “Sobrenome Silva ou mais um Silva”. E eu vou fazer essa fala poética, porque ela conta um pouco dessa minha história, da minha descoberta enquanto poeta. 

Meu sobrenome, Silva
Sobrevivente na selva, mestiço
Negação de colonizador 
Tentaram apagar a minha cor, digitalizar
Sumir com meu sotaque, carnavalizar
E até anular meu sexo, androgenizar
Meu sobrenome são construtores de cidades
Da garoa, maravilhas ou satélites
Luis Inácio, Anderson, Bezerra, Chica, Marielle, Benedita
Tudo da Silva
Meu sobrenome, comedores de marmitas frias
Primeiro lugar na lista telefônica e no Bolsa Família
Catequizados, escravizados, batizados e até assassinados
Todos da Silva
O meu sobrenome é catadores de poesia entre os detritos
E não Santos, não eram Oliveira, e não era um rato
O bicho meu Deus, era um Silva.

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